sexta-feira, 4 de junho de 2010

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Candomblé

CANDOMBLÉ


Os navios negreiros que chegaram entre os séculos XVI e XIX traziam mais do que africanos para trabalhar como escravos no Brasil Colônia. Em seus porões, viajava também uma religião estranha aos portugueses. Considerada feitiçaria pelos colonizadores, ela se transformou, pouco mais de um século depois da abolição da escravatura, numa das religiões mais populares do país.

Por Sílvia Campolim

Quem gosta de cachaça é Exu. Quem veste branco é Oxalá. Quem recebe oferendas em alguidares (vasos de cerâmica) são orixás. E quem adora os orixás são milhões de brasileiros. O candomblé, com seus batuques e danças, é uma festa. Com suas divindades geniosas, é a religião afro-brasileira mais influente do país.
Não existem estatísticas que dêem o número exato de fiéis. Os dados variam. Segundo o Suplemento sobre Participação Político-Social da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1988, 0,6% dos chefes de família (ou cônjuges) seguiam cultos afrobrasileiros. Um levantamento do Instituto Gallup de Opinião Pública, no mesmo ano, indicou que candomblé ou umbanda era a religião de 1,5% da população.
São índices ridículos se comparados à multidão que lota as praias na passagem de ano, para homenagear Iemanjá, a orixá (deusa) dos mares e oceanos. Elisa Callaux, gerente de pesquisa do IBGE, explica por que, tradicionalmente, os índices dos institutos não refletem exatamente a realidade: "Os próprios fiéis evitam assumir, por medo do preconceito." Ela tem razão. A mais célebre mãe-de-santo do Brasil, Menininha do Gantois, falecida em 1986, declarou certa vez ao pesquisador do IBGE que era católica. Apostólica romana.
De seu lado, a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab) desafia ostensivamente as cifras oficiais e garante haver 70 milhões de brasileiros, direta ou indiretamente, ligados aos terreiros - seja como praticantes assíduos, seja como clientes, que ocasionalmente pedem uma bênção ou um "serviço" ao mundo sobrenatural.
Você pode achar um exagero, e talvez seja mesmo, mas terreiro é o que não falta. Em 1980, num convênio da Prefeitura de Salvador com a Fundação Pró-Memória, o antropólogo Ordep Serra, da Universidade Federal da Bahia, concluiu um mapeamento dos terreiros existentes na região metropolitana de Salvador. Eram 1 200. "Hoje são muitos mais", assegura Serra.
Mais recentemente, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) verificou que 81 novos centros "espíritas" (englobando cultos afro-brasileiros e kardecismo) haviam sido abertos no Grande Rio de Janeiro no ano de 1991, e que, em 1992, surgiram outros 83. O sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo, contou, em 1984, 19 500 terreiros registrados nos cartórios da capital paulista.
Onde tem terreiro, tem festa. Por isso, para levar você ao mundo do candomblé, SUPER começa por convidá-lo para uma festa no terreiro. Agora, você conhecerá em detalhes um dos fenômenos mais impressionantes da civilização brasileira.

Para saber mais:
A cara de Zumbi
(SUPER número 11, ano 9)

O barracão está pronto: a festa vai começar

São nove horas da noite. Os tocadores de atabaque, chamados alabês, estão a postos em seus lugares. O público - cerca de 40 pessoas - aguarda em silêncio, acomodado em bancos rústicos de madeira. Os homens, na fileira à direita da porta. As mulheres, do lado esquerdo. Separados, para evitar um eventual namoro. Afinal, ali não é lugar para isso. Estamos num templo do candomblé, a Casa Branca, em Salvador, Bahia, o pioneiro do Brasil, fundado em 1830.A festa (que pode ser comparada a uma missa católica) vai homenagear Xangô, o deus do fogo e do trovão.
O barracão foi decorado durante toda a tarde. O teto de telha-vã foi escondido por bandeirolas brancas e vermelhas - as cores de Xangô. As paredes estão enfeitadas de flores e folhas de palmeira de dendê desfiadas. Vai começar o toque, como é chamada a festa de candomblé no Brasil. Ela é aberta a todos os orixás (deuses, que também podem ser chamados de santos) que quiserem homenagear Xangô.
O que o público vai assistir é parte de um ritual que começou horas antes. Na madrugada, os filhos-de-santo fizeram o sacrifício para o orixá homenageado. Nas primeiras horas da manhã, as filhas-de-santo prepararam a comida. Durante a tarde, foi feita a oferenda aos deuses, e Exu, o mensageiro entre os homens e os orixás, foi despachado. Entenda melhor essa preparação




O calendário litúrgico

Muitas festas não têm dia certo para acontecer.
As festas normalmente estão associadas aos dias santos do catolicismo. Mas as datas podem variar de terreiro para terreiro, de acordo com a disponibilidade e as possibilidades da comunidade.
De maneira geral, o que importa é comemorar o orixá na sua época.
As principais festas, ao longo do ano, são as seguintes:

Abril: Feijoada de Ogum e festa de Oxóssi (associado a São Sebastião), em qualquer dia.
Junho: Fogueiras de Xangô (associados a São João e São Pedro), dias 25 e 29.
Agosto: Festa para Obaluaiê (associado a São Lázaro e São Roque) e festa de Oxumaré (associado a São Bartolomeu), em qualquer dia.
Setembro: Começa um ciclo de festas chamado Águas de Oxalá, que pode seguir até dezembro. Festa de Erê, em homenagem aos espíritos infantis
(associados a São Cosme e Damião). Festa das iabás (esposas de orixás)
e festa de Xangô (associado a São Jerônimo), em qualquer dia.
Dezembro: Festas das iabás Iansã (Santa Bárbara), dia 4, Oxum e Iemanjá (associadas a Nossa Senhora da Conceição), dia 8. Iemanjá também é homenageada na passagem de ano.
Janeiro: Festa de Oxalá (coincide com a festa do Bonfim, em Salvador), no segundo domingo depois do dia de Reis, 6 de janeiro.
Quaresma: O encerramento do ano litúrgico acontece durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa, com o Lorogun, em homenagem a Oxalá.


Ao som dos atabaques, o santo "baixa"

Fotografar uma festa de candomblé não é tão fácil. Na Casa Branca, é absolutamente proibido. Mas outros terreiros, como o Ilê Axé Ajagonã Obá-Olá Fadaká, em Cotia, região da grande São Paulo, são mais liberais. Nesta casa, podemos bater fotos da cerimônia em homenagem a Xangô. Mas com uma ressalva: a de jamais fotografar de frente um filho-de-santo com o orixá "incorporado".
A casa está cheia: 85 pessoas lotam o barracão. Os atabaques começam a "falar" com os deuses. Os orixás são invocados com cantigas próprias e os filhos-de-santo "entram na roda", um a um, na chamada ordem do xirê: primeiro, o filho de Ogum, seguido pelos filhos de Oxóssi, Obaluaiê e assim por diante.
Ao som do canto e da batida dos atabaques, cada integrante da roda entra em transe. O corpo estremece em convulsão, às vezes suavemente, outras vezes com violência. Agora, os filhos "incorporam" os orixás e dançam até que o pai-de-santo autorize, com um aceno, sua saída, para serem arrumados pelas camareiras, chamadas equedes. Logo depois, eles voltam ao barracão, vestindo roupas, colares e enfeites típicos de seu santo. Ao ouvir seu cântico, cada um começa a dançar sozinho uma coreografia que conta a origem do orixá "incorporado".
É quase meia-noite quando os atabaques tocam as cantigas de Oxalá, o criador dos homens. Saudado Oxalá, é hora da comunhão com os deuses: os pratos são servidos aos participantes da festa. O xirê chega ao fim.


Sem música, não existe cerimônia

Tudo acontece sob a batida de três atabaques

Os três atabaques que fazem soar o toque durante o ritual também são responsáveis pela convocação dos deuses.
O rum funciona como solista, marcando os passos da dança. Os outros dois, o rumpi e o lé, reforçam a marcação, reproduzindo as modulações da língua africana iorubá - uma língua cantada, como o sotaque baiano. Além dos atabaques, usam-se também o agogô e o xequerê.
São, ao todo, mais de quinze ritmos diferentes. Cada casa-de-santo tem até 500 cânticos. Segundo a fé dos praticantes, os versos e as frases rítmicas, repetidos incansavelmente, têm o poder de "captar" o mundo sobrenatural. Essa música sagrada só sai dos terreiros na época do carnaval, levada por grupos e blocos de rua, principalmente em Salvador, como Olodum ou Filhos de Gandhi .


As divindades têm defeitos humanos

Em qualquer terreiro, a entrada dos orixás na festa segue sempre a mesma seqüência da ordem do xirê. Depois de despachar Exu, o primeiro a entrar na roda é Ogum, seguido de Oxóssi, Oba- luaiê, Ossaim, Oxumaré, Xangô, Oxum, Iansã, Nanã, Iemanjá e Oxalá.
Segundo a tradição, os deuses do candomblé têm origem nos ancestrais dos clãs africanos, divinizados há mais de 5 000 anos. Acredita-se que tenham sido homens e mulheres capazes de manipular as forças da natureza, ou que trouxeram para o grupo os conhecimentos básicos para a sobrevivência, como a caça, o plantio, o uso de ervas na cura de doenças e a fabricação de ferramentas.
Os orixás estão longe de se parecer com os santos cristãos. Ao contrário, as divindades do candomblé têm características muito humanas: são vaidosos, temperamentais, briguentos, fortes, maternais ou ciumentos. Enfim, têm personalidade própria. Cada traço da personalidade é asso-ciado a um elemento da natureza e da sua cultura: o fogo, o ar, a água, a terra, as florestas e os instrumentos de ferro.
Na África Ocidental, existem mais de 200 orixás. Mas, na vinda dos escravos para o Brasil, grande parte dessa tradição se perdeu. Hoje, o número de orixás conhecidos no país está reduzido a dezesseis. E, mesmo desse pequeno grupo, apenas doze são ainda cultuados: os outros quatro - Obá, Logunedé, Ewa e Irôco - raramente se "manifestam" nas festas e rituais.


Deuses e homens sob o mesmo teto

O terreiro, ou casa-de-santo, é simultaneamente templo e morada. A vida cotidiana dos mortais mistura-se com os rituais dos orixás. A família-de-santo (a mãe ou o pai e os filhos-de-santo, não necessariamente parentes de sangue) divide os cômodos com os deuses.
A divisão do espaço, na Casa Branca, em Salvador, lembra os "compounds" africanos, ou egbes - antigas habitações coletivas dos clãs, usadas principalmente pelos povos de língua iorubá. O cômodo principal é o barracão, o salão onde humanos e santos se encontram nas festas.
Por trás do barracão, há várias instalações comuns a uma residência: salas de jantar e de estar, cozinha e quartos - nem todos destinados aos mortais. Há os quartos-de-santo, onde ficam os pejis (altares) e os assentamentos (objetos e símbolos) dos orixás. Aí são feitas as oferendas. Na Casa Branca, os dois únicos orixás que têm quartos dentro da casa são Xangô e Oxalá.
O roncó é um quarto especial onde os abiãs (noviços) ficam recolhidos durante o processo de iniciação. Essa proximidade dos abiãs com os outros membros do terreiro é fundamental: é assim que os iniciados entram em contato com os procedimentos rituais da casa. O fiel do candomblé aprende com os olhos e os ouvidos. Ele deve prestar atenção a tudo e não perguntar nada.
Os terreiros têm também uma área externa, onde estão as casas dos outros orixás. A de Exu, por exemplo, fica perto da porta de entrada.


Sucessão: guerra à vista
A sucessão numa casa-de-santo é sempre tumultuada: basta o pai-de-santo morrer para ter início uma verdadeira guerra entre orixás. Os filhos que não concordam com a indicação dos búzios costumam abandonar o terreiro e fundar sua própria casa. Foi assim que nasceu, no início do século, o Gantois - uma das casas mais conhecidas em Salvador. A partir da década de 70, mãe Menininha do Gantois se tornou conhecida no Brasil inteiro, cantada por compositores, como Dorival Caymmi e Caetano Veloso, e venerada por intelectuais, como Jorge Amado. Mãe Menininha morreu aos 92 anos de idade, em 1986. Deixou em seu lugar mãe Creusa.


Por meses, o noviço só come com as mãos

Os filhos-de-santo são os sacerdotes dos orixás, da mesma forma como, na Igreja Católica, os padres são os representantes de Deus. Nem todos, porém, são preparados para "receber" os santos. Existem os que cuidam dos filhos-de-santo quando os orixás "baixam", os que sacrificam os animais, os que tocam os atabaques e os que preparam a comida. Os búzios, usados como instrumento de adivinhação, é que vão dizer qual a função de cada um.
A entrada para essa hierarquia é a indicação do orixá. É o que se chama "bolar no santo". A partir daí, o abiã (noviço) tem de se submeter aos rituais de iniciação - cerimônias do bori, orô e saídas de iaô.
Um recém-iniciado passa de um a seis meses vivendo dentro de severas restrições. É o tempo de quelê - o período em que o abiã usa um colar de contas justo ao pescoço. Enquanto usar o quelê, ele deve vestir branco, comer com as mãos e sentar-se só no chão. Estão proibidas as relações sexuais e os pratos que não sejam os de seu orixá.
Nem todos os terreiros seguem à risca todas as imposições. Mas pelo menos algumas têm de ser obedecidas: é parte do compromisso do abiã com seu orixá e seu pai ou mãe-de-santo. As obrigações não terminam por aí: o iniciado, que agora se chama iaô, terá de cumprir ainda três rituais - depois de um ano, três anos e sete anos -, com sacrifícios, toques e oferendas. Só depois ele pode se candidatar a ebômi, o degrau seguinte da hierarquia.



A sabedoria da morte e da advinhação
Como toda religião , o candomblé tem sua maneira própria de encarar a morte. Segundo a crença, a alma vive no Orum, que corresponde, mais ou menos, ao céu dos católicos. Ela é imortal e faz várias passagens do Orum para a vida terrena. Cada um tem controle sobre essas "viagens": quem tem uma boa experiência em vida, pode escolher um destino melhor, na vinda seguinte.
Aqui na Terra, nada que se refira aos deuses e ao futuro pode ser dito sem a consulta ao Ifá, ou seja o jogo de búzios, conchas usadas como oráculo. O Ifá revela o orixá de cada um e orienta na solução de problemas.
O jogo usa dois caminhos: a aritmética e a intuição. Pela aritmética, é contado o número de conchas, abertas ou fechadas, combinadas duas a duas. Para interpretar todas as combinações possíveis dos bú- zios, o pai-de-santo conhece de cor 256 lendas que traduzem as mensagens dos deuses. Isso não é nada raro no candomblé, onde nada é escrito. Toda a sabedoria é transmitida oralmente.
No outro sistema de adivinhação, o intuitivo, o pai-de-santo estuda a posição dos búzios em relação a outros elementos na mesa, como uma moeda ou um copo d´água. Se o búzio cai perto da moeda, por exemplo, pode indicar que não há problemas com dinheiro. Mas é preciso estar preparado: os orixás vão "cobrar pela consulta" uma obrigação. Mãe Kutu, que foi formada pela Casa Branca e está montando seu próprio terreiro, diz: "Se não vai fazer a obrigação, é melhor nem perguntar aos búzios."


Reza para o santo católico e vela para o orixá

Existem diferentes tipos de candomblé no Brasil, cada um deles saído de uma nação. A palavra "nação" aqui não tem nada a ver com o conceito político e geográfico, mas com os grupos étnicos daqueles que foram trazidos da África como escravos. As diferenças aparecem principalmente na maneira de tocar os atabaques, na língua do culto e no nome dos orixás.
Os povos que mais influenciaram os quatro tipos de candomblé praticados no Brasil são os da língua iorubá. Os rituais da Casa Branca, em Salvador, e da casa de Cotia, em São Paulo, descritos nesta reportagem, pertencem ao tipo Queto.
A mistura com o catolicismo foi uma questão de sobrevivência. Para os colonizadores portugueses, as danças e os ri- tuais africanos eram pura feitiçaria e deviam ser reprimidos. A saída, para os escravos, era rezar para um santo e acender a vela para um orixá. Foi assim que os santos católicos pegaram carona com os deuses africanos e passaram a ser associados a eles. A partir da década de 20, o espiritismo também entrou nos terreiros, criando a umbanda, com características bem diferentes.
Assim, o candomblé já se incorporou à alma brasileira. Tanto é que o país inteiro conhece o grito de felicidade- a sau-dação mágica que significa, em iorubá, energia vital e sagrada: Axé!



Da África ao Brasil, uma boa mistura

A principal diferença entre os vários tipos de candomblé é a origem étnica.

Há quatro tipos de candomblé:
o Queto, da Bahia, o Xangô, de Pernambuco, o Batuque, do Rio Grande do Sul, e o Angola, da Bahia e São Paulo. O Queto chegou com os povos nagôs, que falam a língua iorubá (em
vermelho, no mapa). Saídos das regiões que hoje correspondem ao Sudão, Nigéria e Benin, eles vieram para o Nordeste. Os bantos saíram das regiões de Moçambique, Angola e Congo para Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo (em amarelo, no mapa). Criaram o culto ao caboclo, representante das entidades da mata.


Candomblé não é umbanda

As duas são religiões afro-brasileiras.
Umbanda é a mistura do candomblé com espiritismo

Candomblé

Deuses: Orixás de origem africana. Nenhum santo é superior ou inferior a outro. Não existe o Bem e o Mal, isoladamente.

Culto: Louvação aos orixás que "incorporam" nos fiéis, para fortalecer o axé (energia vital) que protege o terreiro e seus membros.

Iniciação: Condição essencial para participar do culto. O recolhimento dura de sete a 21 dias. O ritual envolve o sacrifício de animais, a oferenda de alimentos e a obediência a rígidos preceitos.

Música: Cânticos em língua africana, acompanhados por três atabaques tocados por iniciados do sexo masculino.

Umbanda

Deuses: As entidades são agrupadas em hierarquia, que vai dos espíritos mais "baixos" (maus) aos mais "evoluídos" (bons).

Culto: Desenvolvimento espiritual dos médiuns que, quando "incorporam", dão passes e consultas.

Iniciação: Não é necessária. O recolhimento é de apenas um ou dois dias. O sacrifício de animais não é obrigatório.
O batismo é feito com água do mar ou de cachoeira.

Música: Cânticos em português, acompanhados por palmas e atabaques, tocados por fiéis
de qualquer sexo.


Quem é quem (e quem faz o quê) na hierarquia de uma casa-de-santo

Cada iniciado tem uma função dentro do terreiro. Nem todos "recebem" santo.

Abiã
Noviço, primeiro degrau da hierarquia. Após iniciado, será filho-de-santo.

Iaô
Filho-de-santo, segundo degrau na hierarquia. Podem ou não "receber" santo.

Ebômi
Terceiro degrau. Iaô que cumpriu as obrigações de sete anos. "Recebe" santo.

Iabassê
Quarto degrau. Não "recebe". É a responsável pela cozinha do terreiro.

Agibonã
Mãe criadeira. Também quarto degrau. Cuida dos iaôs durante o ritual de iniciação. Não "recebe" santo.

Ialaxé
Quinto degrau. Zela pelas oferendas e objetos de culto aos orixás. Não "recebe" santo.

Baba-quequerê e Iaquequerê
Sexto degrau. Pai ou mãe-pequena. "Recebe". Ajuda o pai ou mãe-de-santo no comando do terreiro.

Baba-lorixá e Ialorixá
Pai ou mãe-de-santo, chefe do terreiro, último degrau da hierarquia. "Recebe" santo e joga búzios.


Ogã
Filho-de-santo que não "recebe".
O Ogã pode ser Axogum ou Alabê, conforme sua tarefa.

Axogum
Ogã responsável pelo sacrifício de animais a serem ofertados aos orixás. Não "recebe" santo.

Alabê
Ogã tocador dos atabaques e instrumentos rituais. Não "recebe" santo.

Equede
Paralela ao Ogã. Não "recebe". Cuida dos orixás "incorporados" e de seus objetos.


As diversas fases da iniciação

Primeiro, o santo indica a pessoa a ser iniciada.
Depois, é preciso cumprir outros três passos:

Bolar no santo
É o mesmo que cair no santo. Este é o sinal que indica a necessidade de iniciação de uma pessoa no candomblé. Acontece sem previsão, normalmente numa festa: durante a dança e os cânticos o orixá se "manifesta" no futurofilho-de-santo, que é agitado por tremores e sobressaltos violentos. Quem já "bolou" conta que sentiu arrepios, calor, fraqueza e sensação de desmaio. Quando acorda no roncó (o quarto do terreiro reservado à pessoa que "bolou"), o abiã não consegue se lembrar de nada do que aconteceu.

O bori
É a cerimônia que reforça a ligação entre o orixá e o iniciado. O abiã se senta numa esteira, rodeado de alimentos secos, aves, velas e objetos de seu orixá. Ajudado pelos filhos já feitos, o pai ou a mãe-de-santo sacrifica aves. O sangue é usado para marcar o corpo do noviço e para banhar as oferendas ao orixá.
A cerimônia só termina quando as aves são servidas aos membros da família-de-santo. Depois do bori, o futuro filho-de-santo passa a assistir às cerimônias e a preparar o enxoval (a roupa e os adereços de seu orixá) para terminar a iniciação, com as saídas de iaô.

Orô
Confinado ao quarto de recolhimento (roncó), por 21 dias, o noviço conhece a hierarquia da casa, os preceitos, as orações, os cânticos, a dança de seu orixá, os mitos e suas obrigações. Durante esse tempo ele toma infusões de ervas, que o deixam num estado de entorpecimento e "abrem espaço" na sua mente para o orixá. A cabeça é raspada e o crânio marcado com navalha: é por esses cortes que o orixá vai "entrar", quando for "incorporado". No final, o iniciado é "batizado" com sangue de um animal quadrúpede, sacrificado.
Os iaôs são apresentados à comunidade, como num baile de debutante
Na primeira saída, os iaôs vestem branco em homenagem a Oxalá, pai de todos. Saúdam o pai-de-santo, os atabaques e os pontos principais do barracão e vão-se embora. Na segunda saída, os iaôs voltam com roupas coloridas e a cabeça pintada, segundo seus orixás. Dançam e deixam o barracão, em seguida.
Na terceira saída, os orixás anunciam oficialmente seus nomes. Os iaôs entram em transe e se retiram para vestir as roupas do santo "incorporado".



Os doze orixás mais cultuados no Brasil

Cada um deles tem o seu símbolo, o seu dia da semana, suas vestimentas e cores próprias. Como os homens, são temperamentais

Exu
Orixá mensageiro entre os homens e os deuses, guardião da porta da rua e das encruzilhadas. Só através dele é possível invocar os orixás.
Elemento: fogo
Personalidade: atrevido e agressivo
Símbolo: ogó (um bastão adornado com cabaças e búzios)
Dia da semana: segunda-feira
Colar: vermelho e preto
Roupa: vermelha e preta
Sacrifício: bode e galo preto
Oferendas: farofa com dendê, feijão, inhame, água,mel e aguardente

Ogum
Deus da guerra, do fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus guerreiro. Sabe trabalhar com metal e, sem sua proteção, o trabalho não pode ser proveitoso.
Elemento: ferro
Símbolo: espada
Personalidade: impaciente e obstinado
Dia da semana: terça-feira
Colar: azul-marinho
Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo
Sacrifício: galo e bode avermelhados
Oferendas: feijoada, xinxim, inhame

Oxóssi
Deus da caça. É o grande patrono do candomblé brasileiro.
Elemento: florestas
Personalidade: intuitivo e emotivo
Símbolo: rabo de cavalo e chifre de boi
Dia da semana: quinta-feira
Colar: azul claro
Roupa: azul ou verde claro
Sacrifício: galo e bode avermelhados e porco
Oferendas: milho branco e amarelo, peixe de escamas, arroz, feijão e abóbora

Obaluaiê
Deus da peste, das doenças da pele e, atualmente, da AIDS. É o médico dos pobres.
Elemento: terra
Personalidade: tímido e vingativo
Símbolo: xaxará (feixe de palha e búzios)
Dia da semana: segunda-feira
Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e preto
Roupa: vermelha e preta, coberta por palha
Sacrifício: galo, pato,bode e porco
Oferendas: pipoca, feijão preto, farofa e milho, com muito dendê

Oxum
Deusa das águas doces (rios, fontes e lagos). É também deusa do ouro, da fecundidade, do jogo de búzios e do amor.
Elemento: água
Personalidade: maternal e tranqüila
Símbolo: abebê (leque espelhado)
Dia da semana: sábado
Colar: amarelo ouro
Roupa: amarelo ouro
Sacrifício: cabra, galinha, pomba
Oferendas: milho branco, xinxim de galinha, ovos, peixes de água doce


Iansã
Deusa dos ventos e das tempestades.
É a senhora dos raios e dona da alma dos mortos.
Elemento: fogo
Personalidade: impulsiva e imprevisível
Símbolo: espada e rabo de cavalo (representando a realeza)
Dia da semana: quarta-feira
Colar: vermelho ou marrom escuro
Roupa: vermelha
Sacrifício: cabra e galinha
Oferendas: milho branco, arroz, feijão e acarajé

Ossaim
Deus das folhas e ervas medicinais. Conhece seus usos e as palavras mágicas (ofós) que despertam seus poderes.
Elemento: matas
Personalidade: instável e emotivo
Símbolo: lança com pássaros na forma de leque e feixe de folhas
Dia da semana: quinta-feira
Colar: branco rajado de verde
Roupa: branco e verde claro
Sacrifício: galo e carneiro
Oferendas: feijão, arroz, milho vermelho e farofa de dendê

Nanã
Deusa da lama e do fundo dos rios, associada à fertilidade, à doença e à morte. É a orixá mais velha de todos e, por isso, muito respeitada.
Elemento: terra
Personalidade: vingativa e mascarada
Símbolo: ibiri (cetro de palha e búzios)
Dia da semana: sábado
Colar: branco, azul e vermelho
Roupa: branca e azul
Sacrifício: cabra e galinha
Oferendas: milho branco, arroz, feijão, mel e dendê

Oxumaré
Deus da chuva e do arco-íris. É, ao mesmo tempo, de natureza masculina e feminina. Transporta a água entre o céu e a terra.
Elemento: água
Personalidade: sensível e tranqüilo
Símbolo: cobra de metal
Dia da semana: quinta-feira
Colar: amarelo e verde
Roupa: azul claro e verde claro
Sacrifício: bode, galo e tatu
Oferendas: milho branco, acarajé, coco, mel, inhame e feijão com ovos

Iemanjá
Considerada deusa dos mares e oceanos. É a mãe de todos os orixás e representada com seios volumosos, simbolizando a maternidade e a fecundidade.
Elemento: água
Personalidade: maternal e tranqüila
Símbolo: leque e espada
Dia da semana: sábado
Colar: transparente,
verde ou azul claro
Roupa: branco e azul
Sacrifício: porco, cabra e galinha
Oferendas: peixes do mar, arroz,
milho, camarão com coco

Xangô
Deus do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó, cidade da Nigéria. É viril, violento e justiceiro. Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes.
Elemento: fogo
Personalidade:
atrevido e prepotente
Símbolo: machado
duplo (oxé)
Dia da semana: quarta-feira
Colar: branco e vermelho
Roupa: branca e vermelha, com coroa de latão
Sacrifício: galo, pato, carneiro e cágado
Oferendas: amalá (quiabo com
camarão seco e dendê)

Oxalá
Deus da criação. É o orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é representado de duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã, velho.
Elemento: ar
Personalidade: equilibrado e tolerante
Símbolo: oparoxó (cajado de alumínio
com adornos)
Dia da semana: sexta-feira
Colar: branco
Roupa: branca
Sacrifício: cabra, galinha,
pomba, pata e caracol
Oferendas: arroz, milho branco e massa de inhame



O toque
É o mesmo que festa e se refere à batida dos atabaques, que convoca os orixás. A estrutura da cerimônia, chamada "ordem do xirê" (brincadeira, na língua iorubá), divide a festa em três partes. A primeira acontece à tarde, com o sacrifício, a oferenda e o padê de Exu. A segunda é a festa em si, à noite, na presença do público, quando os filhos-de-santo "incorporam" os orixás. E a terceira fase, o encerramento, com a roda de Oxalá, o deus criador do homem.

O sacrifício
Acontece apenas diante dos membros da comunidade de santo e envolve no mínimo dois animais: um, de duas patas, para Exu, e outro, de quatro patas, macho ou fêmea, dependendo do sexo do orixá a ser homenageado. Quem realiza o sacrifício é o ogã axogum, um iniciado no candomblé
especialmente preparado para isso. Os bichos são mortos com um golpe na nuca. Depois, a cabeça e os membros são cortados fora e o animal sacrificado vai sangrar até a última gota antes de ser destinado à oferenda.

A oferenda
Depois do sacrifício, a moela, o fígado, o coração, os pés, as asas e a cabeça são separados e oferecidos ao orixá homenageado num vaso de barro, chamado alguidar. O sangue, recolhido numa quartinha de cerâmica (espécie de moringa), é derramado sobre o assentamento do santo, ou seja, o local onde ficam seus objetos e símbolos. As partes restantes são destinadas ao jantar oferecido aos orixás, ainda à tarde, e aos participantes, ao final da festa pública, à noite.

O padê de Exu
Este é também um ritual fechado ao público. Significa despacho de Exu. É ele quem faz a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. Portanto, é ele quem convoca os orixás para a festa dos humanos. Para isso, é preciso agradá-lo, oferecendo comida (farofa com dendê, feijão ou inhame) e bebida (água, cachaça ou mel). As oferendas são levadas para fora do barracão e a porta de entrada é batizada com a bebida, já que Exu é o guardião da entrada e das encruzilhadas (por isso é comum ver oferendas em esquinas nas ruas e em encruzilhadas nas estradas).


Fonte: Super Interessante - N° 88 - 1995

Orixás

OS ORIXÁS LHE DESEJAM AXÉ

Para os adeptos do Candomblé, axé significa tudo o que é sagrado, a força vital. Descubra o mundo dos orixás, divindades trazidas pelos africanos que povoam os terreiros de todo o Brasil

Marcelo Ferroni


Certo dia, Olorum, o deus supremo do Candomblé, decidiu que era hora de criar todas as coisas do Céu e da Terra. Para isso, escolheu o mais sábio de seus filhos, Oxalá, e lhe deu um saco com tudo o que era preciso para a tarefa. Mas avisou: antes, era preciso fazer homenagens a Exu, divindade que sempre participa daquilo que está para acontecer. Oxalá, no entanto, resolveu deixar Exu de lado porque queria que a criação do mundo fosse sua obra exclusiva. Ao saber que fôra excluído, Exu, enfurecido, armou uma vingança: por meio de seus conhecimentos mágicos, provocou uma sede enorme em Oxalá.
Sedento, com o saco nas costas, Oxalá extraiu de uma palmeira um líquido conhecido como vinho de palma. Mas sua sede não passava. Bebeu mais e mais e, embriagado, deitou-se para dormir. Odudua, irmão de Oxalá, enciumado por não ter sido o escolhido do pai, viu sua oportunidade: pegou o saco e, fazendo as devidas homenagens a Exu, criou tudo o que existe: a terra, a água, o sol e a lua. Quando Oxalá acordou, viu que o mundo havia sido feito. Chateado, procurou Olorum para se queixar. O deus, percebendo a infelicidade do filho, disse que não era possível voltar atrás. Mas ainda faltava algo: colocar o homem e os outros seres vivos sobre a Terra. Foi o que fez Oxalá, desta vez dando a Exu o que lhe cabia.
Assim aconteceu a criação do mundo e de todas as coisas, segundo o Candomblé, religião politeísta baseada nas artes divinatórias e em incontáveis rituais de celebração. Criado a partir de tradições africanas que chegaram ao Brasil com o tráfico negreiro, o Candomblé se instalou na Bahia na metade do século XIX, disseminou-se por outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, e não deixou mais o país.
Hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, estima que existam cerca de 139 mil praticantes da religião no país. O número, no entanto, pode ser bem maior se forem levadas em conta as pessoas que freqüentam terreiros ou se reúnem todos os anos para fazer oferendas a Iemanjá. Para a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab), o Candomblé abriga milhões de participantes. Estima-se que existam 2 mil terreiros espalhados apenas pela Grande Salvador, o reduto mais forte da religião.
O Candomblé foi formado a partir das crenças de vários povos africanos, ou "nações", vindas principalmente da área cultural conhecida como banto (onde hoje se localizam Angola, Gabão, Congo, Zaire e Moçambique) e da região do golfo da Guiné. Essa diversidade de culturas também influenciou a religião no Brasil: aqui se estabeleceram diversas "nações" de Candomblé, cada qual com pequenas variações. Apenas um especialista consegue distinguir uma da outra pelos nomes dados às suas divindades, pela maneira de tocar os tambores, pelo idioma dos cânticos ou mesmo pelas roupas usadas nas cerimônias.
A nação de Candomblé que mais se disseminou no país, principalmente na Bahia, foi a chamada nação queto, que preserva as tradições da cultura iorubá, ou nagô, povo que originalmente habitava uma região entre a Nigéria e Benin. Quando se fala em Candomblé no Brasil, normalmente se faz referência ao Candomblé queto. Suas tradições, inclusive, foram aos poucos absorvidas por outras nações, criando uma espécie de uniformização ritual.
O Candomblé se baseia na crença em orixás, divindades africanas que fazem a ligação entre o mundo espiritual e o terreno. Olorum, o criador dos orixás, não interfere no funcionamento do mundo. Isso fica a cargo de seus filhos divinizados - Exu, Oxalá e tantos outros. Os orixás têm características muito parecidas com dos humanos. Eles brigam, tramam complôs e tentam roubar o poder um do outro. Alguns se apaixonam, outros são invejosos ou ciumentos. Alguns são casados - é o caso de Xangô, cujas mulheres são Oxum, Obá e Iansã. Outros são parentes, como Nanã, mãe de Omulu, e Iemanjá, considerada por alguns como a mãe de todos os orixás.
Cada orixá tem poder sobre um aspecto da vida. Oxalá, por exemplo, é o criador dos homens. Iemanjá é a deusa dos oceanos e da maternidade. Exu é o deus mensageiro, que faz a ligação entre os homens e os orixás e entre os próprios orixás. Oxóssi é o deus da caça e da fartura. Xangô representa o trovão e, ao mesmo tempo, a justiça. Não existem orixás mais poderosos que outros. "Oxalá, Xangô ou Exu têm a mesma importância porque cuidam de aspectos diferentes da vida", afirma o sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo. "Há uma divisão de trabalho. Para que tudo vá bem, é preciso que eles atuem em pé de igualdade."
É difícil estipular o número de divindades existentes. Na África, eles podiam ser mais de 400. Cada povo tinha seus deuses específicos. Um rio tinha um orixá, uma montanha, outro. Até mesmo uma árvore possuía uma divindade associada. Em alguns casos, o orixá podia ser também um ancestral importante para seu povo. É o caso de Xangô, orixá associado ao trovão e, ao mesmo tempo, um dos primeiros reis da cidade de Oió, que foi por muito tempo um dos centros iorubanos mais importantes.

Orixás brasileiros
No Brasil, a mistura de todas as tradições africanas, com os mais diversos orixás, provocou uma espécie de consolidação do panteão, com um número limitado de deuses, que gira em torno de 20. Entre eles, há um grupo de orixás mais populares, ou seja, que contam com mais seguidores e costumam ser reverenciados com mais freqüência nos terreiros de Candomblé (leia quadro na página 43). "Um orixá não é mais importante que outro em termos de poder, mas ele pode ser mais festejado, ter mais filhos de santo, mais seguidores", diz Reginaldo. "Além disso, nas festas existe uma hierarquia protocolar entre eles."
Nessa hierarquia, há algumas particularidades. Nas festas e em qualquer ritual privado, por exemplo, Exu precisa ser sempre homenageado em primeiro lugar. "Como ele é muito brincalhão e às vezes assusta, faz artes, precisa ser honrado antes para não atrapalhar o culto", diz pai Pércio de Xangô, do centro Ilê Alaketu Axé Airá, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Pai Pércio é um babalorixá, ou pai-de-santo na língua iorubá. Os babalorixás, ou as ialorixás (mães-de-santo), são os sacerdotes do Candomblé e os líderes espirituais de cada terreiro.
Os orixás brasileiros têm outra característica: muitas vezes, são associados a santos, hábito que surgiu em função do sincretismo entre as tradições africanas e a religião católica. Isso ocorreu na época dos escravos, que não podiam cultuar seus orixás sem ser repreendidos pelos senhores do engenho. Ogum tornou-se Santo Antônio; Oxóssi, São Jorge; Iansã, Santa Bárbara e assim por diante. "Os senhores de senzala achavam que os negros estavam adorando os santos, mas os orixás ficavam embaixo da mesa, com os rituais de sacrifício e as oferendas de comida", diz pai Francisco de Oxum, do centro Ilê Axé Iyá Oxum, em São Paulo.
Esse sincretismo acabou por influenciar o Candomblé e, indiretamente, o Catolicismo. "Os católicos baianos que se vestem de branco nas sextas-feiras em homenagem ao Senhor do Bonfim estão seguindo uma regra do Candomblé, em que a cor branca é característica de Oxalá, identificado como o Senhor do Bonfim", afirma Ordep Serra, da Universidade Federal da Bahia.
Outro traço marcante do Candomblé é a relação entre o orixá e seu seguidor. Cada pessoa tem o que se chama de "um orixá na cabeça". Ou seja, cada um é governado por um deus. São os orixás que escolhem seus filhos, poucos dias após o nascimento da criança. Por isso, todos precisam fazer oferendas em homenagem ao seu "santo", abster-se de comer alguns alimentos proibidos e respeitar o dia sagrado dele. Cada filho-de-santo também tem características semelhantes ao seu orixá. Os filhos de Oxalá, por exemplo, costumam ser tolerantes. Os filhos de Ogum, deus da metalurgia, são ambiciosos. As filhas de Obá são ciumentas e as de Oxum, amorosas.
Para descobrir o orixá de cada um, é preciso recorrer aos búzios, um ritual de adivinhação de importância fundamental para o Candomblé. Na África, os búzios eram jogados pelos babalaôs, sacerdotes ligados ao dom da adivinhação. No Brasil, a tarefa foi absorvida pelo pai ou mãe-de-santo. Os búzios concentram alguns pontos fundamentais da religião: por meio deles, o pai-de-santo descobre qual o orixá da pessoa, faz previsões, dá conselhos. No Brasil, o ritual consiste, na maioria dos casos, no lançamento de 16 búzios, cada qual com uma face inteira e a outra cortada. Ao jogar os búzios na peneira, eles caem com uma das duas faces para cima. Cada combinação obtida - num total de 16 - equivale a um odu, ou sinal, que indica ao pai-de-santo uma resposta àquilo que o consulente procura saber.
O contato entre deuses e mortais não acontece só pelo jogo dos búzios, mas também pelo transe e pela possessão de alguns filhos-de-santo durante as festas públicas. As datas das festas são escolhidas pelo próprio terreiro. Em cada uma, um orixá em especial é homenageado. Isso não impede, no entanto, que os demais deuses participem da festa. Como cada filho-de-santo de um terreiro tem o seu próprio orixá, o que ocorre é uma enorme festa comunitária, em que cada divindade toma posse do seu filho e dança no meio do salão, executando seus passos característicos. "Isso não ocorre na África", diz Reginaldo. "Lá, os cultos são feitos em templos especializados para cada orixá."

Festa no terreiro
A festa envolve preparativos por todo o dia. De manhã, Exu - que sempre toma parte nos rituais - e o orixá a ser homenageado recebem sacrifícios. Para cada deus, um animal é sacrificado. Pode ser uma galinha, um bode, um pombo... "Os bichos são oferecidos para que a religião continue viva", diz pai Francisco. "É como as pessoas: sem carne, sem sangue, nós não estaríamos de pé. O sacrifício é uma troca, um elo de ligação." Para pai Pércio, o sangue significa vida. "A gente alimenta o chão, a terra, a pedra, o ferro, com o sangue de animais." O ritual é conduzido pelo axogum, filho-de-santo com essa função específica.
À tarde, os animais são transformados em pratos pela iabassê, cozinheira do terreiro. Partes como fígado, coração, moela e asas, assim como o sangue, são dedicadas aos deuses. O restante é usado em receitas que serão mais tarde saboreadas pelos participantes da festa. Cada orixá tem sua comida típica. Xangô, por exemplo, tem o amalá, um preparado de quiabo em fatias, azeite de dendê e camarões secos. Oxum tem o omolucum, um purê de feijão-fradinho enfeitado com cinco ovos cozidos; Iansã, os bolinhos de acarajé. As semelhanças com a culinária da Bahia não são mera coincidência. "Todos os pratos baianos mais conhecidos, como o caruru, o vatapá e o acarajé, integram o repertório das oferendas alimentares dos terreiros", afirma Ordep Serra. "A culinária baiana é essencialmente negra e essencialmente um legado do Candomblé."
O próximo passo do ritual consiste em celebrar o que é chamado de "padê de Exu", ou seja, o despacho de Exu. Como é ele quem convoca os demais orixás para a festa, é importante homenageá-lo antes que o ritual comece. O padê é celebrado pelas duas filhas-de-santo mais antigas do terreiro, ao som de cânticos na língua iorubá.
A partir daí, a festa se inicia. Para chamar os deuses ao mundo dos mortais, os tambores têm uma importância fundamental no ritual. São tocados por filhos-de-santo específicos, os alabês, e acompanhados de cânticos africanos. Os instrumentos devem ser tratados com extremo cuidado. Periodicamente, recebem oferendas e sacrifícios para se fortalecer. Além disso, não devem deixar o terreiro em que foram iniciados, para não perder sua força.

A dança dos orixás
Cada orixá tem seus próprios cânticos, que são entoados enquanto as filhas de santo fazem uma espécie de dança de roda no barracão, local em que ocorrem as festas públicas. Eles começam invocando Exu, passam a Ogum e Oxóssi, em uma seqüência que varia de terreiro psrs terreiro. Depois da invocação, filhos e filhas, num sobressalto, começam a incorporar seus orixás e retomam a dança. No meio da festa, eles são retirados do barracão e vestidos com trajes com as cores do seu orixá e seus objetos rituais específicos. Os filhos de Oxalá, por exemplo, vêm de branco, com um cetro. Os de Ogum, com detalhes em verde ou azul-escuro e um facão, e as filhas de Oxum, em amarelo ou dourado e com um espelho.
Cada filho-de-santo recebe só o orixá a que está ligado. No entanto, um santo pode ter uma pessoa que esteja apenas assistindo a cerimônia. É o que se chama de "bolar o santo". "Isso indica que ela precisa se iniciar na religião", diz pai Francisco. "Acontece até com estrangeiros; é a semente africana adormecida naquela pessoa." Depois de iniciadas, as festas costumam entrar noite adentro e terminam com um banquete oferecido pelo babalorixá a todos os convidados. No final da celebração, acontece a confraternização entre os participantes. Não há distinção de classes entre o pai-de-santo, seus filhos e os convidados que não são iniciados no Candomblé.
Cada terreiro, independente dos demais, organiza festas e rituais. Nesse encargo fica o babalorixá, pai-de-santo, ou a ialorixá, mãe-de-santo. Além do "sumo sacerdote" do Candomblé, há uma estrutura de cargos e funções necessárias para manter a ordem de um terreiro. "Um centro é como um país", diz pai Geraldo Odé Jinná Furtado, do centro Ilê Odê, em Vargem, interior de São Paulo. "Além do babalorixá, há um conselho religioso e uma hierarquia complexa."
Abaixo do pai-de-santo, está o pai ou a mãe-pequena (baba-quequerê e Iaquequerê), que ajudam na manutenção do terreiro. Há também os filhos-de-santo que não incorporam os deuses. Chamados de ogãs, eles podem ser os responsáveis pelo batuque, pelo sacrifício ou por auxiliar os filhos-de-santo durante o transe. Alguns ogãs também atuam como "padrinhos" do terreiro, resolvendo problemas práticos para mantê-lo funcionando. Entre os membros que "recebem" o santo, também há uma hierarquia. Os noviços são chamados de abiãs. Depois de alguns anos, tornam-se iaôs, que podem ou não incorporar os santos e, finalmente, os ebômis, ou irmãos mais velhos, que já cumpriram todas as obrigações e recebem os orixás nas cerimônias.
Além das festas, pouca coisa é pública no Candomblé. Os processos de iniciação, por exemplo, são mantidos em segredo. Neles, a ligação do filho-de-santo com o mundo espiritual fica cada vez maior. Envolvem sacrifícios, orações e, num estágio mais avançado, o confinamento do noviço, para ele conhecer os mitos, a hierarquia do terreiro e assim reforçar seu envolvimento com a religião.
Em todo o processo, assim como em tudo o que é feito no Candomblé, é necessário o uso de ervas e folhas especiais para cada ocasião. Como dizem os pais-de-santo, sem as folhas nada se faz. Esse contato direto com a natureza é outro ponto fundamental do Candomblé. "Adoramos tudo o que existe: as águas, as pedras, a terra", diz pai Geraldo. "A própria essência do orixá é a natureza." Após os rituais de iniciação, o filho-de-santo passa a ter objetos sagrados, guardados no próprio terreiro, que representam a ligação entre ele e seu orixá.
Os objetos sagrados são o axé. O axé é a força vital, a energia que permeia o Candomblé. Os presentes aos orixás também constituem o axé. As ervas, o sacrifício, os cantos, tudo representa esse poder misterioso. Pode ser uma bênção, um cumprimento. É uma força a ser acumulada, gasta e emprestada. "O axé é tudo o que é sagrado", afirma pai Francisco. "É algo poderoso, que dá a vida, mas que também a tira." Sem axé, não haveria o Candomblé. Como diz o babalorixá, sem axé, não haveria nada.



Exu
Orixá mensageiro, atrevido e inteligente. É também o deus da sexualidade masculina

Obaluaiê
Orixá das pestes. Seu rosto é coberto com palha para esconder marcas no rosto

Iansã
Deus dos raios, das tempestades e da sensualidade. É esposa de Xangô e guerreira

Oxóssi
Orixá da caça e da fauna, representa a fartura de alimentos. Curioso e solitário

Obá
Uma das mulheres de Xangô. Orixá das correntezas dos rios e da vida doméstica

Oxumarê
Orixá do arco-íris, também chamado deus-serpente. Charmoso e imprevisível

Nanã
Deusa que possui o segredo da vida e da morte. Orixá protetora, introspectiva e sábia

Iemanjá
Orixá dos oceanos e da maternidade. É considerada a mãe dos orixás

Oxum
Orixá das águas doces, do ouro, do amor e da fertilidade. Vela pela gravidez

Xangô
Deus do trovão e da justiça, conhecedor dos caminhos do poder. É jovem e sensual

Ogum
Deus do ferro, métodico e obstinado. Representa a guerra e a tecnologia

Oxalá
Também chamado de "o grande orixá", é o criador dos seres humanos





Livros
Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi. Companhia das Letras, 2000.
O Candomblé da Bahia, de Roger Bastide. Companhia das Letras, 2001.

Site
www.fflch,usp.br/sociologia/prandi/


Fonte: revista superinteressante, maio 2003