
sexta-feira, 4 de junho de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Candomblé
CANDOMBLÉ
Os navios negreiros que chegaram entre os séculos XVI e XIX traziam mais do que africanos para trabalhar como escravos no Brasil Colônia. Em seus porões, viajava também uma religião estranha aos portugueses. Considerada feitiçaria pelos colonizadores, ela se transformou, pouco mais de um século depois da abolição da escravatura, numa das religiões mais populares do país.
Por Sílvia Campolim
Quem gosta de cachaça é Exu. Quem veste branco é Oxalá. Quem recebe oferendas em alguidares (vasos de cerâmica) são orixás. E quem adora os orixás são milhões de brasileiros. O candomblé, com seus batuques e danças, é uma festa. Com suas divindades geniosas, é a religião afro-brasileira mais influente do país.
Não existem estatísticas que dêem o número exato de fiéis. Os dados variam. Segundo o Suplemento sobre Participação Político-Social da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1988, 0,6% dos chefes de família (ou cônjuges) seguiam cultos afrobrasileiros. Um levantamento do Instituto Gallup de Opinião Pública, no mesmo ano, indicou que candomblé ou umbanda era a religião de 1,5% da população.
São índices ridículos se comparados à multidão que lota as praias na passagem de ano, para homenagear Iemanjá, a orixá (deusa) dos mares e oceanos. Elisa Callaux, gerente de pesquisa do IBGE, explica por que, tradicionalmente, os índices dos institutos não refletem exatamente a realidade: "Os próprios fiéis evitam assumir, por medo do preconceito." Ela tem razão. A mais célebre mãe-de-santo do Brasil, Menininha do Gantois, falecida em 1986, declarou certa vez ao pesquisador do IBGE que era católica. Apostólica romana.
De seu lado, a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab) desafia ostensivamente as cifras oficiais e garante haver 70 milhões de brasileiros, direta ou indiretamente, ligados aos terreiros - seja como praticantes assíduos, seja como clientes, que ocasionalmente pedem uma bênção ou um "serviço" ao mundo sobrenatural.
Você pode achar um exagero, e talvez seja mesmo, mas terreiro é o que não falta. Em 1980, num convênio da Prefeitura de Salvador com a Fundação Pró-Memória, o antropólogo Ordep Serra, da Universidade Federal da Bahia, concluiu um mapeamento dos terreiros existentes na região metropolitana de Salvador. Eram 1 200. "Hoje são muitos mais", assegura Serra.
Mais recentemente, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) verificou que 81 novos centros "espíritas" (englobando cultos afro-brasileiros e kardecismo) haviam sido abertos no Grande Rio de Janeiro no ano de 1991, e que, em 1992, surgiram outros 83. O sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo, contou, em 1984, 19 500 terreiros registrados nos cartórios da capital paulista.
Onde tem terreiro, tem festa. Por isso, para levar você ao mundo do candomblé, SUPER começa por convidá-lo para uma festa no terreiro. Agora, você conhecerá em detalhes um dos fenômenos mais impressionantes da civilização brasileira.
Para saber mais:
A cara de Zumbi
(SUPER número 11, ano 9)
O barracão está pronto: a festa vai começar
São nove horas da noite. Os tocadores de atabaque, chamados alabês, estão a postos em seus lugares. O público - cerca de 40 pessoas - aguarda em silêncio, acomodado em bancos rústicos de madeira. Os homens, na fileira à direita da porta. As mulheres, do lado esquerdo. Separados, para evitar um eventual namoro. Afinal, ali não é lugar para isso. Estamos num templo do candomblé, a Casa Branca, em Salvador, Bahia, o pioneiro do Brasil, fundado em 1830.A festa (que pode ser comparada a uma missa católica) vai homenagear Xangô, o deus do fogo e do trovão.
O barracão foi decorado durante toda a tarde. O teto de telha-vã foi escondido por bandeirolas brancas e vermelhas - as cores de Xangô. As paredes estão enfeitadas de flores e folhas de palmeira de dendê desfiadas. Vai começar o toque, como é chamada a festa de candomblé no Brasil. Ela é aberta a todos os orixás (deuses, que também podem ser chamados de santos) que quiserem homenagear Xangô.
O que o público vai assistir é parte de um ritual que começou horas antes. Na madrugada, os filhos-de-santo fizeram o sacrifício para o orixá homenageado. Nas primeiras horas da manhã, as filhas-de-santo prepararam a comida. Durante a tarde, foi feita a oferenda aos deuses, e Exu, o mensageiro entre os homens e os orixás, foi despachado. Entenda melhor essa preparação
O calendário litúrgico
Muitas festas não têm dia certo para acontecer.
As festas normalmente estão associadas aos dias santos do catolicismo. Mas as datas podem variar de terreiro para terreiro, de acordo com a disponibilidade e as possibilidades da comunidade.
De maneira geral, o que importa é comemorar o orixá na sua época.
As principais festas, ao longo do ano, são as seguintes:
Abril: Feijoada de Ogum e festa de Oxóssi (associado a São Sebastião), em qualquer dia.
Junho: Fogueiras de Xangô (associados a São João e São Pedro), dias 25 e 29.
Agosto: Festa para Obaluaiê (associado a São Lázaro e São Roque) e festa de Oxumaré (associado a São Bartolomeu), em qualquer dia.
Setembro: Começa um ciclo de festas chamado Águas de Oxalá, que pode seguir até dezembro. Festa de Erê, em homenagem aos espíritos infantis
(associados a São Cosme e Damião). Festa das iabás (esposas de orixás)
e festa de Xangô (associado a São Jerônimo), em qualquer dia.
Dezembro: Festas das iabás Iansã (Santa Bárbara), dia 4, Oxum e Iemanjá (associadas a Nossa Senhora da Conceição), dia 8. Iemanjá também é homenageada na passagem de ano.
Janeiro: Festa de Oxalá (coincide com a festa do Bonfim, em Salvador), no segundo domingo depois do dia de Reis, 6 de janeiro.
Quaresma: O encerramento do ano litúrgico acontece durante os quarenta dias que antecedem a Páscoa, com o Lorogun, em homenagem a Oxalá.
Ao som dos atabaques, o santo "baixa"
Fotografar uma festa de candomblé não é tão fácil. Na Casa Branca, é absolutamente proibido. Mas outros terreiros, como o Ilê Axé Ajagonã Obá-Olá Fadaká, em Cotia, região da grande São Paulo, são mais liberais. Nesta casa, podemos bater fotos da cerimônia em homenagem a Xangô. Mas com uma ressalva: a de jamais fotografar de frente um filho-de-santo com o orixá "incorporado".
A casa está cheia: 85 pessoas lotam o barracão. Os atabaques começam a "falar" com os deuses. Os orixás são invocados com cantigas próprias e os filhos-de-santo "entram na roda", um a um, na chamada ordem do xirê: primeiro, o filho de Ogum, seguido pelos filhos de Oxóssi, Obaluaiê e assim por diante.
Ao som do canto e da batida dos atabaques, cada integrante da roda entra em transe. O corpo estremece em convulsão, às vezes suavemente, outras vezes com violência. Agora, os filhos "incorporam" os orixás e dançam até que o pai-de-santo autorize, com um aceno, sua saída, para serem arrumados pelas camareiras, chamadas equedes. Logo depois, eles voltam ao barracão, vestindo roupas, colares e enfeites típicos de seu santo. Ao ouvir seu cântico, cada um começa a dançar sozinho uma coreografia que conta a origem do orixá "incorporado".
É quase meia-noite quando os atabaques tocam as cantigas de Oxalá, o criador dos homens. Saudado Oxalá, é hora da comunhão com os deuses: os pratos são servidos aos participantes da festa. O xirê chega ao fim.
Sem música, não existe cerimônia
Tudo acontece sob a batida de três atabaques
Os três atabaques que fazem soar o toque durante o ritual também são responsáveis pela convocação dos deuses.
O rum funciona como solista, marcando os passos da dança. Os outros dois, o rumpi e o lé, reforçam a marcação, reproduzindo as modulações da língua africana iorubá - uma língua cantada, como o sotaque baiano. Além dos atabaques, usam-se também o agogô e o xequerê.
São, ao todo, mais de quinze ritmos diferentes. Cada casa-de-santo tem até 500 cânticos. Segundo a fé dos praticantes, os versos e as frases rítmicas, repetidos incansavelmente, têm o poder de "captar" o mundo sobrenatural. Essa música sagrada só sai dos terreiros na época do carnaval, levada por grupos e blocos de rua, principalmente em Salvador, como Olodum ou Filhos de Gandhi .
As divindades têm defeitos humanos
Em qualquer terreiro, a entrada dos orixás na festa segue sempre a mesma seqüência da ordem do xirê. Depois de despachar Exu, o primeiro a entrar na roda é Ogum, seguido de Oxóssi, Oba- luaiê, Ossaim, Oxumaré, Xangô, Oxum, Iansã, Nanã, Iemanjá e Oxalá.
Segundo a tradição, os deuses do candomblé têm origem nos ancestrais dos clãs africanos, divinizados há mais de 5 000 anos. Acredita-se que tenham sido homens e mulheres capazes de manipular as forças da natureza, ou que trouxeram para o grupo os conhecimentos básicos para a sobrevivência, como a caça, o plantio, o uso de ervas na cura de doenças e a fabricação de ferramentas.
Os orixás estão longe de se parecer com os santos cristãos. Ao contrário, as divindades do candomblé têm características muito humanas: são vaidosos, temperamentais, briguentos, fortes, maternais ou ciumentos. Enfim, têm personalidade própria. Cada traço da personalidade é asso-ciado a um elemento da natureza e da sua cultura: o fogo, o ar, a água, a terra, as florestas e os instrumentos de ferro.
Na África Ocidental, existem mais de 200 orixás. Mas, na vinda dos escravos para o Brasil, grande parte dessa tradição se perdeu. Hoje, o número de orixás conhecidos no país está reduzido a dezesseis. E, mesmo desse pequeno grupo, apenas doze são ainda cultuados: os outros quatro - Obá, Logunedé, Ewa e Irôco - raramente se "manifestam" nas festas e rituais.
Deuses e homens sob o mesmo teto
O terreiro, ou casa-de-santo, é simultaneamente templo e morada. A vida cotidiana dos mortais mistura-se com os rituais dos orixás. A família-de-santo (a mãe ou o pai e os filhos-de-santo, não necessariamente parentes de sangue) divide os cômodos com os deuses.
A divisão do espaço, na Casa Branca, em Salvador, lembra os "compounds" africanos, ou egbes - antigas habitações coletivas dos clãs, usadas principalmente pelos povos de língua iorubá. O cômodo principal é o barracão, o salão onde humanos e santos se encontram nas festas.
Por trás do barracão, há várias instalações comuns a uma residência: salas de jantar e de estar, cozinha e quartos - nem todos destinados aos mortais. Há os quartos-de-santo, onde ficam os pejis (altares) e os assentamentos (objetos e símbolos) dos orixás. Aí são feitas as oferendas. Na Casa Branca, os dois únicos orixás que têm quartos dentro da casa são Xangô e Oxalá.
O roncó é um quarto especial onde os abiãs (noviços) ficam recolhidos durante o processo de iniciação. Essa proximidade dos abiãs com os outros membros do terreiro é fundamental: é assim que os iniciados entram em contato com os procedimentos rituais da casa. O fiel do candomblé aprende com os olhos e os ouvidos. Ele deve prestar atenção a tudo e não perguntar nada.
Os terreiros têm também uma área externa, onde estão as casas dos outros orixás. A de Exu, por exemplo, fica perto da porta de entrada.
Sucessão: guerra à vista
A sucessão numa casa-de-santo é sempre tumultuada: basta o pai-de-santo morrer para ter início uma verdadeira guerra entre orixás. Os filhos que não concordam com a indicação dos búzios costumam abandonar o terreiro e fundar sua própria casa. Foi assim que nasceu, no início do século, o Gantois - uma das casas mais conhecidas em Salvador. A partir da década de 70, mãe Menininha do Gantois se tornou conhecida no Brasil inteiro, cantada por compositores, como Dorival Caymmi e Caetano Veloso, e venerada por intelectuais, como Jorge Amado. Mãe Menininha morreu aos 92 anos de idade, em 1986. Deixou em seu lugar mãe Creusa.
Por meses, o noviço só come com as mãos
Os filhos-de-santo são os sacerdotes dos orixás, da mesma forma como, na Igreja Católica, os padres são os representantes de Deus. Nem todos, porém, são preparados para "receber" os santos. Existem os que cuidam dos filhos-de-santo quando os orixás "baixam", os que sacrificam os animais, os que tocam os atabaques e os que preparam a comida. Os búzios, usados como instrumento de adivinhação, é que vão dizer qual a função de cada um.
A entrada para essa hierarquia é a indicação do orixá. É o que se chama "bolar no santo". A partir daí, o abiã (noviço) tem de se submeter aos rituais de iniciação - cerimônias do bori, orô e saídas de iaô.
Um recém-iniciado passa de um a seis meses vivendo dentro de severas restrições. É o tempo de quelê - o período em que o abiã usa um colar de contas justo ao pescoço. Enquanto usar o quelê, ele deve vestir branco, comer com as mãos e sentar-se só no chão. Estão proibidas as relações sexuais e os pratos que não sejam os de seu orixá.
Nem todos os terreiros seguem à risca todas as imposições. Mas pelo menos algumas têm de ser obedecidas: é parte do compromisso do abiã com seu orixá e seu pai ou mãe-de-santo. As obrigações não terminam por aí: o iniciado, que agora se chama iaô, terá de cumprir ainda três rituais - depois de um ano, três anos e sete anos -, com sacrifícios, toques e oferendas. Só depois ele pode se candidatar a ebômi, o degrau seguinte da hierarquia.
A sabedoria da morte e da advinhação
Como toda religião , o candomblé tem sua maneira própria de encarar a morte. Segundo a crença, a alma vive no Orum, que corresponde, mais ou menos, ao céu dos católicos. Ela é imortal e faz várias passagens do Orum para a vida terrena. Cada um tem controle sobre essas "viagens": quem tem uma boa experiência em vida, pode escolher um destino melhor, na vinda seguinte.
Aqui na Terra, nada que se refira aos deuses e ao futuro pode ser dito sem a consulta ao Ifá, ou seja o jogo de búzios, conchas usadas como oráculo. O Ifá revela o orixá de cada um e orienta na solução de problemas.
O jogo usa dois caminhos: a aritmética e a intuição. Pela aritmética, é contado o número de conchas, abertas ou fechadas, combinadas duas a duas. Para interpretar todas as combinações possíveis dos bú- zios, o pai-de-santo conhece de cor 256 lendas que traduzem as mensagens dos deuses. Isso não é nada raro no candomblé, onde nada é escrito. Toda a sabedoria é transmitida oralmente.
No outro sistema de adivinhação, o intuitivo, o pai-de-santo estuda a posição dos búzios em relação a outros elementos na mesa, como uma moeda ou um copo d´água. Se o búzio cai perto da moeda, por exemplo, pode indicar que não há problemas com dinheiro. Mas é preciso estar preparado: os orixás vão "cobrar pela consulta" uma obrigação. Mãe Kutu, que foi formada pela Casa Branca e está montando seu próprio terreiro, diz: "Se não vai fazer a obrigação, é melhor nem perguntar aos búzios."
Reza para o santo católico e vela para o orixá
Existem diferentes tipos de candomblé no Brasil, cada um deles saído de uma nação. A palavra "nação" aqui não tem nada a ver com o conceito político e geográfico, mas com os grupos étnicos daqueles que foram trazidos da África como escravos. As diferenças aparecem principalmente na maneira de tocar os atabaques, na língua do culto e no nome dos orixás.
Os povos que mais influenciaram os quatro tipos de candomblé praticados no Brasil são os da língua iorubá. Os rituais da Casa Branca, em Salvador, e da casa de Cotia, em São Paulo, descritos nesta reportagem, pertencem ao tipo Queto.
A mistura com o catolicismo foi uma questão de sobrevivência. Para os colonizadores portugueses, as danças e os ri- tuais africanos eram pura feitiçaria e deviam ser reprimidos. A saída, para os escravos, era rezar para um santo e acender a vela para um orixá. Foi assim que os santos católicos pegaram carona com os deuses africanos e passaram a ser associados a eles. A partir da década de 20, o espiritismo também entrou nos terreiros, criando a umbanda, com características bem diferentes.
Assim, o candomblé já se incorporou à alma brasileira. Tanto é que o país inteiro conhece o grito de felicidade- a sau-dação mágica que significa, em iorubá, energia vital e sagrada: Axé!
Da África ao Brasil, uma boa mistura
A principal diferença entre os vários tipos de candomblé é a origem étnica.
Há quatro tipos de candomblé:
o Queto, da Bahia, o Xangô, de Pernambuco, o Batuque, do Rio Grande do Sul, e o Angola, da Bahia e São Paulo. O Queto chegou com os povos nagôs, que falam a língua iorubá (em
vermelho, no mapa). Saídos das regiões que hoje correspondem ao Sudão, Nigéria e Benin, eles vieram para o Nordeste. Os bantos saíram das regiões de Moçambique, Angola e Congo para Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo (em amarelo, no mapa). Criaram o culto ao caboclo, representante das entidades da mata.
Candomblé não é umbanda
As duas são religiões afro-brasileiras.
Umbanda é a mistura do candomblé com espiritismo
Candomblé
Deuses: Orixás de origem africana. Nenhum santo é superior ou inferior a outro. Não existe o Bem e o Mal, isoladamente.
Culto: Louvação aos orixás que "incorporam" nos fiéis, para fortalecer o axé (energia vital) que protege o terreiro e seus membros.
Iniciação: Condição essencial para participar do culto. O recolhimento dura de sete a 21 dias. O ritual envolve o sacrifício de animais, a oferenda de alimentos e a obediência a rígidos preceitos.
Música: Cânticos em língua africana, acompanhados por três atabaques tocados por iniciados do sexo masculino.
Umbanda
Deuses: As entidades são agrupadas em hierarquia, que vai dos espíritos mais "baixos" (maus) aos mais "evoluídos" (bons).
Culto: Desenvolvimento espiritual dos médiuns que, quando "incorporam", dão passes e consultas.
Iniciação: Não é necessária. O recolhimento é de apenas um ou dois dias. O sacrifício de animais não é obrigatório.
O batismo é feito com água do mar ou de cachoeira.
Música: Cânticos em português, acompanhados por palmas e atabaques, tocados por fiéis
de qualquer sexo.
Quem é quem (e quem faz o quê) na hierarquia de uma casa-de-santo
Cada iniciado tem uma função dentro do terreiro. Nem todos "recebem" santo.
Abiã
Noviço, primeiro degrau da hierarquia. Após iniciado, será filho-de-santo.
Iaô
Filho-de-santo, segundo degrau na hierarquia. Podem ou não "receber" santo.
Ebômi
Terceiro degrau. Iaô que cumpriu as obrigações de sete anos. "Recebe" santo.
Iabassê
Quarto degrau. Não "recebe". É a responsável pela cozinha do terreiro.
Agibonã
Mãe criadeira. Também quarto degrau. Cuida dos iaôs durante o ritual de iniciação. Não "recebe" santo.
Ialaxé
Quinto degrau. Zela pelas oferendas e objetos de culto aos orixás. Não "recebe" santo.
Baba-quequerê e Iaquequerê
Sexto degrau. Pai ou mãe-pequena. "Recebe". Ajuda o pai ou mãe-de-santo no comando do terreiro.
Baba-lorixá e Ialorixá
Pai ou mãe-de-santo, chefe do terreiro, último degrau da hierarquia. "Recebe" santo e joga búzios.
Ogã
Filho-de-santo que não "recebe".
O Ogã pode ser Axogum ou Alabê, conforme sua tarefa.
Axogum
Ogã responsável pelo sacrifício de animais a serem ofertados aos orixás. Não "recebe" santo.
Alabê
Ogã tocador dos atabaques e instrumentos rituais. Não "recebe" santo.
Equede
Paralela ao Ogã. Não "recebe". Cuida dos orixás "incorporados" e de seus objetos.
As diversas fases da iniciação
Primeiro, o santo indica a pessoa a ser iniciada.
Depois, é preciso cumprir outros três passos:
Bolar no santo
É o mesmo que cair no santo. Este é o sinal que indica a necessidade de iniciação de uma pessoa no candomblé. Acontece sem previsão, normalmente numa festa: durante a dança e os cânticos o orixá se "manifesta" no futurofilho-de-santo, que é agitado por tremores e sobressaltos violentos. Quem já "bolou" conta que sentiu arrepios, calor, fraqueza e sensação de desmaio. Quando acorda no roncó (o quarto do terreiro reservado à pessoa que "bolou"), o abiã não consegue se lembrar de nada do que aconteceu.
O bori
É a cerimônia que reforça a ligação entre o orixá e o iniciado. O abiã se senta numa esteira, rodeado de alimentos secos, aves, velas e objetos de seu orixá. Ajudado pelos filhos já feitos, o pai ou a mãe-de-santo sacrifica aves. O sangue é usado para marcar o corpo do noviço e para banhar as oferendas ao orixá.
A cerimônia só termina quando as aves são servidas aos membros da família-de-santo. Depois do bori, o futuro filho-de-santo passa a assistir às cerimônias e a preparar o enxoval (a roupa e os adereços de seu orixá) para terminar a iniciação, com as saídas de iaô.
Orô
Confinado ao quarto de recolhimento (roncó), por 21 dias, o noviço conhece a hierarquia da casa, os preceitos, as orações, os cânticos, a dança de seu orixá, os mitos e suas obrigações. Durante esse tempo ele toma infusões de ervas, que o deixam num estado de entorpecimento e "abrem espaço" na sua mente para o orixá. A cabeça é raspada e o crânio marcado com navalha: é por esses cortes que o orixá vai "entrar", quando for "incorporado". No final, o iniciado é "batizado" com sangue de um animal quadrúpede, sacrificado.
Os iaôs são apresentados à comunidade, como num baile de debutante
Na primeira saída, os iaôs vestem branco em homenagem a Oxalá, pai de todos. Saúdam o pai-de-santo, os atabaques e os pontos principais do barracão e vão-se embora. Na segunda saída, os iaôs voltam com roupas coloridas e a cabeça pintada, segundo seus orixás. Dançam e deixam o barracão, em seguida.
Na terceira saída, os orixás anunciam oficialmente seus nomes. Os iaôs entram em transe e se retiram para vestir as roupas do santo "incorporado".
Os doze orixás mais cultuados no Brasil
Cada um deles tem o seu símbolo, o seu dia da semana, suas vestimentas e cores próprias. Como os homens, são temperamentais
Exu
Orixá mensageiro entre os homens e os deuses, guardião da porta da rua e das encruzilhadas. Só através dele é possível invocar os orixás.
Elemento: fogo
Personalidade: atrevido e agressivo
Símbolo: ogó (um bastão adornado com cabaças e búzios)
Dia da semana: segunda-feira
Colar: vermelho e preto
Roupa: vermelha e preta
Sacrifício: bode e galo preto
Oferendas: farofa com dendê, feijão, inhame, água,mel e aguardente
Ogum
Deus da guerra, do fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus guerreiro. Sabe trabalhar com metal e, sem sua proteção, o trabalho não pode ser proveitoso.
Elemento: ferro
Símbolo: espada
Personalidade: impaciente e obstinado
Dia da semana: terça-feira
Colar: azul-marinho
Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo
Sacrifício: galo e bode avermelhados
Oferendas: feijoada, xinxim, inhame
Oxóssi
Deus da caça. É o grande patrono do candomblé brasileiro.
Elemento: florestas
Personalidade: atrevido e agressivo
Símbolo: ogó (um bastão adornado com cabaças e búzios)
Dia da semana: segunda-feira
Colar: vermelho e preto
Roupa: vermelha e preta
Sacrifício: bode e galo preto
Oferendas: farofa com dendê, feijão, inhame, água,mel e aguardente
Ogum
Deus da guerra, do fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus guerreiro. Sabe trabalhar com metal e, sem sua proteção, o trabalho não pode ser proveitoso.
Elemento: ferro
Símbolo: espada
Personalidade: impaciente e obstinado
Dia da semana: terça-feira
Colar: azul-marinho
Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo
Sacrifício: galo e bode avermelhados
Oferendas: feijoada, xinxim, inhame
Oxóssi
Deus da caça. É o grande patrono do candomblé brasileiro.
Elemento: florestas
Personalidade: intuitivo e emotivo
Símbolo: rabo de cavalo e chifre de boi
Dia da semana: quinta-feira
Colar: azul claro
Roupa: azul ou verde claro
Sacrifício: galo e bode avermelhados e porco
Oferendas: milho branco e amarelo, peixe de escamas, arroz, feijão e abóbora
Obaluaiê
Deus da peste, das doenças da pele e, atualmente, da AIDS. É o médico dos pobres.
Elemento: terra
Personalidade: tímido e vingativo
Símbolo: xaxará (feixe de palha e búzios)
Dia da semana: segunda-feira
Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e preto
Roupa: vermelha e preta, coberta por palha
Sacrifício: galo, pato,bode e porco
Oferendas: pipoca, feijão preto, farofa e milho, com muito dendê
Oxum
Deusa das águas doces (rios, fontes e lagos). É também deusa do ouro, da fecundidade, do jogo de búzios e do amor.
Elemento: água
Personalidade: maternal e tranqüila
Símbolo: abebê (leque espelhado)
Dia da semana: sábado
Colar: amarelo ouro
Roupa: amarelo ouro
Sacrifício: cabra, galinha, pomba
Oferendas: milho branco, xinxim de galinha, ovos, peixes de água doce
Iansã
Deusa dos ventos e das tempestades.
É a senhora dos raios e dona da alma dos mortos.
Elemento: fogo
Personalidade: impulsiva e imprevisível
Símbolo: espada e rabo de cavalo (representando a realeza)
Dia da semana: quarta-feira
Colar: vermelho ou marrom escuro
Roupa: vermelha
Sacrifício: cabra e galinha
Oferendas: milho branco, arroz, feijão e acarajé
Ossaim
Deus das folhas e ervas medicinais. Conhece seus usos e as palavras mágicas (ofós) que despertam seus poderes.
Elemento: matas
Personalidade: instável e emotivo
Símbolo: lança com pássaros na forma de leque e feixe de folhas
Dia da semana: quinta-feira
Colar: branco rajado de verde
Roupa: branco e verde claro
Sacrifício: galo e carneiro
Oferendas: feijão, arroz, milho vermelho e farofa de dendê
Nanã
Deusa da lama e do fundo dos rios, associada à fertilidade, à doença e à morte. É a orixá mais velha de todos e, por isso, muito respeitada.
Elemento: terra
Personalidade: vingativa e mascarada
Símbolo: ibiri (cetro de palha e búzios)
Dia da semana: sábado
Colar: branco, azul e vermelho
Roupa: branca e azul
Sacrifício: cabra e galinha
Oferendas: milho branco, arroz, feijão, mel e dendê
Oxumaré
Deus da chuva e do arco-íris. É, ao mesmo tempo, de natureza masculina e feminina. Transporta a água entre o céu e a terra.
Elemento: água
Personalidade: sensível e tranqüilo
Símbolo: cobra de metal
Dia da semana: quinta-feira
Colar: amarelo e verde
Roupa: azul claro e verde claro
Sacrifício: bode, galo e tatu
Oferendas: milho branco, acarajé, coco, mel, inhame e feijão com ovos
Iemanjá
Considerada deusa dos mares e oceanos. É a mãe de todos os orixás e representada com seios volumosos, simbolizando a maternidade e a fecundidade.
Elemento: água
Personalidade: maternal e tranqüila
Símbolo: leque e espada
Dia da semana: sábado
Colar: transparente,
verde ou azul claro
Roupa: branco e azul
Sacrifício: porco, cabra e galinha
Oferendas: peixes do mar, arroz,
milho, camarão com coco
Xangô
Deus do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó, cidade da Nigéria. É viril, violento e justiceiro. Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes.
Elemento: fogo
Personalidade:
atrevido e prepotente
Símbolo: machado
duplo (oxé)
Dia da semana: quarta-feira
Colar: branco e vermelho
Roupa: branca e vermelha, com coroa de latão
Sacrifício: galo, pato, carneiro e cágado
Oferendas: amalá (quiabo com
camarão seco e dendê)
Oxalá
Deus da criação. É o orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é representado de duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã, velho.
Elemento: ar
Personalidade: equilibrado e tolerante
Símbolo: oparoxó (cajado de alumínio
com adornos)
Dia da semana: sexta-feira
Colar: branco
Roupa: branca
Sacrifício: cabra, galinha,
pomba, pata e caracol
Oferendas: arroz, milho branco e massa de inhame
O toque
É o mesmo que festa e se refere à batida dos atabaques, que convoca os orixás. A estrutura da cerimônia, chamada "ordem do xirê" (brincadeira, na língua iorubá), divide a festa em três partes. A primeira acontece à tarde, com o sacrifício, a oferenda e o padê de Exu. A segunda é a festa em si, à noite, na presença do público, quando os filhos-de-santo "incorporam" os orixás. E a terceira fase, o encerramento, com a roda de Oxalá, o deus criador do homem.
O sacrifício
Acontece apenas diante dos membros da comunidade de santo e envolve no mínimo dois animais: um, de duas patas, para Exu, e outro, de quatro patas, macho ou fêmea, dependendo do sexo do orixá a ser homenageado. Quem realiza o sacrifício é o ogã axogum, um iniciado no candomblé
especialmente preparado para isso. Os bichos são mortos com um golpe na nuca. Depois, a cabeça e os membros são cortados fora e o animal sacrificado vai sangrar até a última gota antes de ser destinado à oferenda.
A oferenda
Depois do sacrifício, a moela, o fígado, o coração, os pés, as asas e a cabeça são separados e oferecidos ao orixá homenageado num vaso de barro, chamado alguidar. O sangue, recolhido numa quartinha de cerâmica (espécie de moringa), é derramado sobre o assentamento do santo, ou seja, o local onde ficam seus objetos e símbolos. As partes restantes são destinadas ao jantar oferecido aos orixás, ainda à tarde, e aos participantes, ao final da festa pública, à noite.
O padê de Exu
Este é também um ritual fechado ao público. Significa despacho de Exu. É ele quem faz a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. Portanto, é ele quem convoca os orixás para a festa dos humanos. Para isso, é preciso agradá-lo, oferecendo comida (farofa com dendê, feijão ou inhame) e bebida (água, cachaça ou mel). As oferendas são levadas para fora do barracão e a porta de entrada é batizada com a bebida, já que Exu é o guardião da entrada e das encruzilhadas (por isso é comum ver oferendas em esquinas nas ruas e em encruzilhadas nas estradas).
Fonte: Super Interessante - N° 88 - 1995
Símbolo: rabo de cavalo e chifre de boi
Dia da semana: quinta-feira
Colar: azul claro
Roupa: azul ou verde claro
Sacrifício: galo e bode avermelhados e porco
Oferendas: milho branco e amarelo, peixe de escamas, arroz, feijão e abóbora
Obaluaiê
Deus da peste, das doenças da pele e, atualmente, da AIDS. É o médico dos pobres.
Elemento: terra
Personalidade: tímido e vingativo
Símbolo: xaxará (feixe de palha e búzios)
Dia da semana: segunda-feira
Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e preto
Roupa: vermelha e preta, coberta por palha
Sacrifício: galo, pato,bode e porco
Oferendas: pipoca, feijão preto, farofa e milho, com muito dendê
Oxum
Deusa das águas doces (rios, fontes e lagos). É também deusa do ouro, da fecundidade, do jogo de búzios e do amor.
Elemento: água
Personalidade: maternal e tranqüila
Símbolo: abebê (leque espelhado)
Dia da semana: sábado
Colar: amarelo ouro
Roupa: amarelo ouro
Sacrifício: cabra, galinha, pomba
Oferendas: milho branco, xinxim de galinha, ovos, peixes de água doce
Iansã
Deusa dos ventos e das tempestades.
É a senhora dos raios e dona da alma dos mortos.
Elemento: fogo
Personalidade: impulsiva e imprevisível
Símbolo: espada e rabo de cavalo (representando a realeza)
Dia da semana: quarta-feira
Colar: vermelho ou marrom escuro
Roupa: vermelha
Sacrifício: cabra e galinha
Oferendas: milho branco, arroz, feijão e acarajé
Ossaim
Deus das folhas e ervas medicinais. Conhece seus usos e as palavras mágicas (ofós) que despertam seus poderes.
Elemento: matas
Personalidade: instável e emotivo
Símbolo: lança com pássaros na forma de leque e feixe de folhas
Dia da semana: quinta-feira
Colar: branco rajado de verde
Roupa: branco e verde claro
Sacrifício: galo e carneiro
Oferendas: feijão, arroz, milho vermelho e farofa de dendê
Nanã
Deusa da lama e do fundo dos rios, associada à fertilidade, à doença e à morte. É a orixá mais velha de todos e, por isso, muito respeitada.
Elemento: terra
Personalidade: vingativa e mascarada
Símbolo: ibiri (cetro de palha e búzios)
Dia da semana: sábado
Colar: branco, azul e vermelho
Roupa: branca e azul
Sacrifício: cabra e galinha
Oferendas: milho branco, arroz, feijão, mel e dendê
Oxumaré
Deus da chuva e do arco-íris. É, ao mesmo tempo, de natureza masculina e feminina. Transporta a água entre o céu e a terra.
Elemento: água
Personalidade: sensível e tranqüilo
Símbolo: cobra de metal
Dia da semana: quinta-feira
Colar: amarelo e verde
Roupa: azul claro e verde claro
Sacrifício: bode, galo e tatu
Oferendas: milho branco, acarajé, coco, mel, inhame e feijão com ovos
Iemanjá
Considerada deusa dos mares e oceanos. É a mãe de todos os orixás e representada com seios volumosos, simbolizando a maternidade e a fecundidade.
Elemento: água
Personalidade: maternal e tranqüila
Símbolo: leque e espada
Dia da semana: sábado
Colar: transparente,
verde ou azul claro
Roupa: branco e azul
Sacrifício: porco, cabra e galinha
Oferendas: peixes do mar, arroz,
milho, camarão com coco
Xangô
Deus do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó, cidade da Nigéria. É viril, violento e justiceiro. Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes.
Elemento: fogo
Personalidade:
atrevido e prepotente
Símbolo: machado
duplo (oxé)
Dia da semana: quarta-feira
Colar: branco e vermelho
Roupa: branca e vermelha, com coroa de latão
Sacrifício: galo, pato, carneiro e cágado
Oferendas: amalá (quiabo com
camarão seco e dendê)
Oxalá
Deus da criação. É o orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é representado de duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã, velho.
Elemento: ar
Personalidade: equilibrado e tolerante
Símbolo: oparoxó (cajado de alumínio
com adornos)
Dia da semana: sexta-feira
Colar: branco
Roupa: branca
Sacrifício: cabra, galinha,
pomba, pata e caracol
Oferendas: arroz, milho branco e massa de inhame
O toque
É o mesmo que festa e se refere à batida dos atabaques, que convoca os orixás. A estrutura da cerimônia, chamada "ordem do xirê" (brincadeira, na língua iorubá), divide a festa em três partes. A primeira acontece à tarde, com o sacrifício, a oferenda e o padê de Exu. A segunda é a festa em si, à noite, na presença do público, quando os filhos-de-santo "incorporam" os orixás. E a terceira fase, o encerramento, com a roda de Oxalá, o deus criador do homem.
O sacrifício
Acontece apenas diante dos membros da comunidade de santo e envolve no mínimo dois animais: um, de duas patas, para Exu, e outro, de quatro patas, macho ou fêmea, dependendo do sexo do orixá a ser homenageado. Quem realiza o sacrifício é o ogã axogum, um iniciado no candomblé
especialmente preparado para isso. Os bichos são mortos com um golpe na nuca. Depois, a cabeça e os membros são cortados fora e o animal sacrificado vai sangrar até a última gota antes de ser destinado à oferenda.
A oferenda
Depois do sacrifício, a moela, o fígado, o coração, os pés, as asas e a cabeça são separados e oferecidos ao orixá homenageado num vaso de barro, chamado alguidar. O sangue, recolhido numa quartinha de cerâmica (espécie de moringa), é derramado sobre o assentamento do santo, ou seja, o local onde ficam seus objetos e símbolos. As partes restantes são destinadas ao jantar oferecido aos orixás, ainda à tarde, e aos participantes, ao final da festa pública, à noite.
O padê de Exu
Este é também um ritual fechado ao público. Significa despacho de Exu. É ele quem faz a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. Portanto, é ele quem convoca os orixás para a festa dos humanos. Para isso, é preciso agradá-lo, oferecendo comida (farofa com dendê, feijão ou inhame) e bebida (água, cachaça ou mel). As oferendas são levadas para fora do barracão e a porta de entrada é batizada com a bebida, já que Exu é o guardião da entrada e das encruzilhadas (por isso é comum ver oferendas em esquinas nas ruas e em encruzilhadas nas estradas).
Fonte: Super Interessante - N° 88 - 1995
Orixás
OS ORIXÁS LHE DESEJAM AXÉ
Para os adeptos do Candomblé, axé significa tudo o que é sagrado, a força vital. Descubra o mundo dos orixás, divindades trazidas pelos africanos que povoam os terreiros de todo o Brasil
Marcelo Ferroni
Certo dia, Olorum, o deus supremo do Candomblé, decidiu que era hora de criar todas as coisas do Céu e da Terra. Para isso, escolheu o mais sábio de seus filhos, Oxalá, e lhe deu um saco com tudo o que era preciso para a tarefa. Mas avisou: antes, era preciso fazer homenagens a Exu, divindade que sempre participa daquilo que está para acontecer. Oxalá, no entanto, resolveu deixar Exu de lado porque queria que a criação do mundo fosse sua obra exclusiva. Ao saber que fôra excluído, Exu, enfurecido, armou uma vingança: por meio de seus conhecimentos mágicos, provocou uma sede enorme em Oxalá.
Sedento, com o saco nas costas, Oxalá extraiu de uma palmeira um líquido conhecido como vinho de palma. Mas sua sede não passava. Bebeu mais e mais e, embriagado, deitou-se para dormir. Odudua, irmão de Oxalá, enciumado por não ter sido o escolhido do pai, viu sua oportunidade: pegou o saco e, fazendo as devidas homenagens a Exu, criou tudo o que existe: a terra, a água, o sol e a lua. Quando Oxalá acordou, viu que o mundo havia sido feito. Chateado, procurou Olorum para se queixar. O deus, percebendo a infelicidade do filho, disse que não era possível voltar atrás. Mas ainda faltava algo: colocar o homem e os outros seres vivos sobre a Terra. Foi o que fez Oxalá, desta vez dando a Exu o que lhe cabia.
Assim aconteceu a criação do mundo e de todas as coisas, segundo o Candomblé, religião politeísta baseada nas artes divinatórias e em incontáveis rituais de celebração. Criado a partir de tradições africanas que chegaram ao Brasil com o tráfico negreiro, o Candomblé se instalou na Bahia na metade do século XIX, disseminou-se por outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, e não deixou mais o país.
Hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, estima que existam cerca de 139 mil praticantes da religião no país. O número, no entanto, pode ser bem maior se forem levadas em conta as pessoas que freqüentam terreiros ou se reúnem todos os anos para fazer oferendas a Iemanjá. Para a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab), o Candomblé abriga milhões de participantes. Estima-se que existam 2 mil terreiros espalhados apenas pela Grande Salvador, o reduto mais forte da religião.
O Candomblé foi formado a partir das crenças de vários povos africanos, ou "nações", vindas principalmente da área cultural conhecida como banto (onde hoje se localizam Angola, Gabão, Congo, Zaire e Moçambique) e da região do golfo da Guiné. Essa diversidade de culturas também influenciou a religião no Brasil: aqui se estabeleceram diversas "nações" de Candomblé, cada qual com pequenas variações. Apenas um especialista consegue distinguir uma da outra pelos nomes dados às suas divindades, pela maneira de tocar os tambores, pelo idioma dos cânticos ou mesmo pelas roupas usadas nas cerimônias.
A nação de Candomblé que mais se disseminou no país, principalmente na Bahia, foi a chamada nação queto, que preserva as tradições da cultura iorubá, ou nagô, povo que originalmente habitava uma região entre a Nigéria e Benin. Quando se fala em Candomblé no Brasil, normalmente se faz referência ao Candomblé queto. Suas tradições, inclusive, foram aos poucos absorvidas por outras nações, criando uma espécie de uniformização ritual.
O Candomblé se baseia na crença em orixás, divindades africanas que fazem a ligação entre o mundo espiritual e o terreno. Olorum, o criador dos orixás, não interfere no funcionamento do mundo. Isso fica a cargo de seus filhos divinizados - Exu, Oxalá e tantos outros. Os orixás têm características muito parecidas com dos humanos. Eles brigam, tramam complôs e tentam roubar o poder um do outro. Alguns se apaixonam, outros são invejosos ou ciumentos. Alguns são casados - é o caso de Xangô, cujas mulheres são Oxum, Obá e Iansã. Outros são parentes, como Nanã, mãe de Omulu, e Iemanjá, considerada por alguns como a mãe de todos os orixás.
Cada orixá tem poder sobre um aspecto da vida. Oxalá, por exemplo, é o criador dos homens. Iemanjá é a deusa dos oceanos e da maternidade. Exu é o deus mensageiro, que faz a ligação entre os homens e os orixás e entre os próprios orixás. Oxóssi é o deus da caça e da fartura. Xangô representa o trovão e, ao mesmo tempo, a justiça. Não existem orixás mais poderosos que outros. "Oxalá, Xangô ou Exu têm a mesma importância porque cuidam de aspectos diferentes da vida", afirma o sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo. "Há uma divisão de trabalho. Para que tudo vá bem, é preciso que eles atuem em pé de igualdade."
É difícil estipular o número de divindades existentes. Na África, eles podiam ser mais de 400. Cada povo tinha seus deuses específicos. Um rio tinha um orixá, uma montanha, outro. Até mesmo uma árvore possuía uma divindade associada. Em alguns casos, o orixá podia ser também um ancestral importante para seu povo. É o caso de Xangô, orixá associado ao trovão e, ao mesmo tempo, um dos primeiros reis da cidade de Oió, que foi por muito tempo um dos centros iorubanos mais importantes.
Orixás brasileiros
No Brasil, a mistura de todas as tradições africanas, com os mais diversos orixás, provocou uma espécie de consolidação do panteão, com um número limitado de deuses, que gira em torno de 20. Entre eles, há um grupo de orixás mais populares, ou seja, que contam com mais seguidores e costumam ser reverenciados com mais freqüência nos terreiros de Candomblé (leia quadro na página 43). "Um orixá não é mais importante que outro em termos de poder, mas ele pode ser mais festejado, ter mais filhos de santo, mais seguidores", diz Reginaldo. "Além disso, nas festas existe uma hierarquia protocolar entre eles."
Nessa hierarquia, há algumas particularidades. Nas festas e em qualquer ritual privado, por exemplo, Exu precisa ser sempre homenageado em primeiro lugar. "Como ele é muito brincalhão e às vezes assusta, faz artes, precisa ser honrado antes para não atrapalhar o culto", diz pai Pércio de Xangô, do centro Ilê Alaketu Axé Airá, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Pai Pércio é um babalorixá, ou pai-de-santo na língua iorubá. Os babalorixás, ou as ialorixás (mães-de-santo), são os sacerdotes do Candomblé e os líderes espirituais de cada terreiro.
Os orixás brasileiros têm outra característica: muitas vezes, são associados a santos, hábito que surgiu em função do sincretismo entre as tradições africanas e a religião católica. Isso ocorreu na época dos escravos, que não podiam cultuar seus orixás sem ser repreendidos pelos senhores do engenho. Ogum tornou-se Santo Antônio; Oxóssi, São Jorge; Iansã, Santa Bárbara e assim por diante. "Os senhores de senzala achavam que os negros estavam adorando os santos, mas os orixás ficavam embaixo da mesa, com os rituais de sacrifício e as oferendas de comida", diz pai Francisco de Oxum, do centro Ilê Axé Iyá Oxum, em São Paulo.
Esse sincretismo acabou por influenciar o Candomblé e, indiretamente, o Catolicismo. "Os católicos baianos que se vestem de branco nas sextas-feiras em homenagem ao Senhor do Bonfim estão seguindo uma regra do Candomblé, em que a cor branca é característica de Oxalá, identificado como o Senhor do Bonfim", afirma Ordep Serra, da Universidade Federal da Bahia.
Outro traço marcante do Candomblé é a relação entre o orixá e seu seguidor. Cada pessoa tem o que se chama de "um orixá na cabeça". Ou seja, cada um é governado por um deus. São os orixás que escolhem seus filhos, poucos dias após o nascimento da criança. Por isso, todos precisam fazer oferendas em homenagem ao seu "santo", abster-se de comer alguns alimentos proibidos e respeitar o dia sagrado dele. Cada filho-de-santo também tem características semelhantes ao seu orixá. Os filhos de Oxalá, por exemplo, costumam ser tolerantes. Os filhos de Ogum, deus da metalurgia, são ambiciosos. As filhas de Obá são ciumentas e as de Oxum, amorosas.
Para descobrir o orixá de cada um, é preciso recorrer aos búzios, um ritual de adivinhação de importância fundamental para o Candomblé. Na África, os búzios eram jogados pelos babalaôs, sacerdotes ligados ao dom da adivinhação. No Brasil, a tarefa foi absorvida pelo pai ou mãe-de-santo. Os búzios concentram alguns pontos fundamentais da religião: por meio deles, o pai-de-santo descobre qual o orixá da pessoa, faz previsões, dá conselhos. No Brasil, o ritual consiste, na maioria dos casos, no lançamento de 16 búzios, cada qual com uma face inteira e a outra cortada. Ao jogar os búzios na peneira, eles caem com uma das duas faces para cima. Cada combinação obtida - num total de 16 - equivale a um odu, ou sinal, que indica ao pai-de-santo uma resposta àquilo que o consulente procura saber.
O contato entre deuses e mortais não acontece só pelo jogo dos búzios, mas também pelo transe e pela possessão de alguns filhos-de-santo durante as festas públicas. As datas das festas são escolhidas pelo próprio terreiro. Em cada uma, um orixá em especial é homenageado. Isso não impede, no entanto, que os demais deuses participem da festa. Como cada filho-de-santo de um terreiro tem o seu próprio orixá, o que ocorre é uma enorme festa comunitária, em que cada divindade toma posse do seu filho e dança no meio do salão, executando seus passos característicos. "Isso não ocorre na África", diz Reginaldo. "Lá, os cultos são feitos em templos especializados para cada orixá."
Festa no terreiro
A festa envolve preparativos por todo o dia. De manhã, Exu - que sempre toma parte nos rituais - e o orixá a ser homenageado recebem sacrifícios. Para cada deus, um animal é sacrificado. Pode ser uma galinha, um bode, um pombo... "Os bichos são oferecidos para que a religião continue viva", diz pai Francisco. "É como as pessoas: sem carne, sem sangue, nós não estaríamos de pé. O sacrifício é uma troca, um elo de ligação." Para pai Pércio, o sangue significa vida. "A gente alimenta o chão, a terra, a pedra, o ferro, com o sangue de animais." O ritual é conduzido pelo axogum, filho-de-santo com essa função específica.
À tarde, os animais são transformados em pratos pela iabassê, cozinheira do terreiro. Partes como fígado, coração, moela e asas, assim como o sangue, são dedicadas aos deuses. O restante é usado em receitas que serão mais tarde saboreadas pelos participantes da festa. Cada orixá tem sua comida típica. Xangô, por exemplo, tem o amalá, um preparado de quiabo em fatias, azeite de dendê e camarões secos. Oxum tem o omolucum, um purê de feijão-fradinho enfeitado com cinco ovos cozidos; Iansã, os bolinhos de acarajé. As semelhanças com a culinária da Bahia não são mera coincidência. "Todos os pratos baianos mais conhecidos, como o caruru, o vatapá e o acarajé, integram o repertório das oferendas alimentares dos terreiros", afirma Ordep Serra. "A culinária baiana é essencialmente negra e essencialmente um legado do Candomblé."
O próximo passo do ritual consiste em celebrar o que é chamado de "padê de Exu", ou seja, o despacho de Exu. Como é ele quem convoca os demais orixás para a festa, é importante homenageá-lo antes que o ritual comece. O padê é celebrado pelas duas filhas-de-santo mais antigas do terreiro, ao som de cânticos na língua iorubá.
A partir daí, a festa se inicia. Para chamar os deuses ao mundo dos mortais, os tambores têm uma importância fundamental no ritual. São tocados por filhos-de-santo específicos, os alabês, e acompanhados de cânticos africanos. Os instrumentos devem ser tratados com extremo cuidado. Periodicamente, recebem oferendas e sacrifícios para se fortalecer. Além disso, não devem deixar o terreiro em que foram iniciados, para não perder sua força.
A dança dos orixás
Cada orixá tem seus próprios cânticos, que são entoados enquanto as filhas de santo fazem uma espécie de dança de roda no barracão, local em que ocorrem as festas públicas. Eles começam invocando Exu, passam a Ogum e Oxóssi, em uma seqüência que varia de terreiro psrs terreiro. Depois da invocação, filhos e filhas, num sobressalto, começam a incorporar seus orixás e retomam a dança. No meio da festa, eles são retirados do barracão e vestidos com trajes com as cores do seu orixá e seus objetos rituais específicos. Os filhos de Oxalá, por exemplo, vêm de branco, com um cetro. Os de Ogum, com detalhes em verde ou azul-escuro e um facão, e as filhas de Oxum, em amarelo ou dourado e com um espelho.
Cada filho-de-santo recebe só o orixá a que está ligado. No entanto, um santo pode ter uma pessoa que esteja apenas assistindo a cerimônia. É o que se chama de "bolar o santo". "Isso indica que ela precisa se iniciar na religião", diz pai Francisco. "Acontece até com estrangeiros; é a semente africana adormecida naquela pessoa." Depois de iniciadas, as festas costumam entrar noite adentro e terminam com um banquete oferecido pelo babalorixá a todos os convidados. No final da celebração, acontece a confraternização entre os participantes. Não há distinção de classes entre o pai-de-santo, seus filhos e os convidados que não são iniciados no Candomblé.
Cada terreiro, independente dos demais, organiza festas e rituais. Nesse encargo fica o babalorixá, pai-de-santo, ou a ialorixá, mãe-de-santo. Além do "sumo sacerdote" do Candomblé, há uma estrutura de cargos e funções necessárias para manter a ordem de um terreiro. "Um centro é como um país", diz pai Geraldo Odé Jinná Furtado, do centro Ilê Odê, em Vargem, interior de São Paulo. "Além do babalorixá, há um conselho religioso e uma hierarquia complexa."
Abaixo do pai-de-santo, está o pai ou a mãe-pequena (baba-quequerê e Iaquequerê), que ajudam na manutenção do terreiro. Há também os filhos-de-santo que não incorporam os deuses. Chamados de ogãs, eles podem ser os responsáveis pelo batuque, pelo sacrifício ou por auxiliar os filhos-de-santo durante o transe. Alguns ogãs também atuam como "padrinhos" do terreiro, resolvendo problemas práticos para mantê-lo funcionando. Entre os membros que "recebem" o santo, também há uma hierarquia. Os noviços são chamados de abiãs. Depois de alguns anos, tornam-se iaôs, que podem ou não incorporar os santos e, finalmente, os ebômis, ou irmãos mais velhos, que já cumpriram todas as obrigações e recebem os orixás nas cerimônias.
Além das festas, pouca coisa é pública no Candomblé. Os processos de iniciação, por exemplo, são mantidos em segredo. Neles, a ligação do filho-de-santo com o mundo espiritual fica cada vez maior. Envolvem sacrifícios, orações e, num estágio mais avançado, o confinamento do noviço, para ele conhecer os mitos, a hierarquia do terreiro e assim reforçar seu envolvimento com a religião.
Em todo o processo, assim como em tudo o que é feito no Candomblé, é necessário o uso de ervas e folhas especiais para cada ocasião. Como dizem os pais-de-santo, sem as folhas nada se faz. Esse contato direto com a natureza é outro ponto fundamental do Candomblé. "Adoramos tudo o que existe: as águas, as pedras, a terra", diz pai Geraldo. "A própria essência do orixá é a natureza." Após os rituais de iniciação, o filho-de-santo passa a ter objetos sagrados, guardados no próprio terreiro, que representam a ligação entre ele e seu orixá.
Os objetos sagrados são o axé. O axé é a força vital, a energia que permeia o Candomblé. Os presentes aos orixás também constituem o axé. As ervas, o sacrifício, os cantos, tudo representa esse poder misterioso. Pode ser uma bênção, um cumprimento. É uma força a ser acumulada, gasta e emprestada. "O axé é tudo o que é sagrado", afirma pai Francisco. "É algo poderoso, que dá a vida, mas que também a tira." Sem axé, não haveria o Candomblé. Como diz o babalorixá, sem axé, não haveria nada.
Exu
Orixá mensageiro, atrevido e inteligente. É também o deus da sexualidade masculina
Obaluaiê
Orixá das pestes. Seu rosto é coberto com palha para esconder marcas no rosto
Iansã
Deus dos raios, das tempestades e da sensualidade. É esposa de Xangô e guerreira
Oxóssi
Orixá da caça e da fauna, representa a fartura de alimentos. Curioso e solitário
Obá
Uma das mulheres de Xangô. Orixá das correntezas dos rios e da vida doméstica
Oxumarê
Orixá do arco-íris, também chamado deus-serpente. Charmoso e imprevisível
Nanã
Deusa que possui o segredo da vida e da morte. Orixá protetora, introspectiva e sábia
Iemanjá
Orixá dos oceanos e da maternidade. É considerada a mãe dos orixás
Oxum
Orixá das águas doces, do ouro, do amor e da fertilidade. Vela pela gravidez
Xangô
Deus do trovão e da justiça, conhecedor dos caminhos do poder. É jovem e sensual
Ogum
Deus do ferro, métodico e obstinado. Representa a guerra e a tecnologia
Oxalá
Também chamado de "o grande orixá", é o criador dos seres humanos
Livros
Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi. Companhia das Letras, 2000.
O Candomblé da Bahia, de Roger Bastide. Companhia das Letras, 2001.
Site
www.fflch,usp.br/sociologia/prandi/
Fonte: revista superinteressante, maio 2003
Para os adeptos do Candomblé, axé significa tudo o que é sagrado, a força vital. Descubra o mundo dos orixás, divindades trazidas pelos africanos que povoam os terreiros de todo o Brasil
Marcelo Ferroni
Certo dia, Olorum, o deus supremo do Candomblé, decidiu que era hora de criar todas as coisas do Céu e da Terra. Para isso, escolheu o mais sábio de seus filhos, Oxalá, e lhe deu um saco com tudo o que era preciso para a tarefa. Mas avisou: antes, era preciso fazer homenagens a Exu, divindade que sempre participa daquilo que está para acontecer. Oxalá, no entanto, resolveu deixar Exu de lado porque queria que a criação do mundo fosse sua obra exclusiva. Ao saber que fôra excluído, Exu, enfurecido, armou uma vingança: por meio de seus conhecimentos mágicos, provocou uma sede enorme em Oxalá.
Sedento, com o saco nas costas, Oxalá extraiu de uma palmeira um líquido conhecido como vinho de palma. Mas sua sede não passava. Bebeu mais e mais e, embriagado, deitou-se para dormir. Odudua, irmão de Oxalá, enciumado por não ter sido o escolhido do pai, viu sua oportunidade: pegou o saco e, fazendo as devidas homenagens a Exu, criou tudo o que existe: a terra, a água, o sol e a lua. Quando Oxalá acordou, viu que o mundo havia sido feito. Chateado, procurou Olorum para se queixar. O deus, percebendo a infelicidade do filho, disse que não era possível voltar atrás. Mas ainda faltava algo: colocar o homem e os outros seres vivos sobre a Terra. Foi o que fez Oxalá, desta vez dando a Exu o que lhe cabia.
Assim aconteceu a criação do mundo e de todas as coisas, segundo o Candomblé, religião politeísta baseada nas artes divinatórias e em incontáveis rituais de celebração. Criado a partir de tradições africanas que chegaram ao Brasil com o tráfico negreiro, o Candomblé se instalou na Bahia na metade do século XIX, disseminou-se por outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, e não deixou mais o país.
Hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, estima que existam cerca de 139 mil praticantes da religião no país. O número, no entanto, pode ser bem maior se forem levadas em conta as pessoas que freqüentam terreiros ou se reúnem todos os anos para fazer oferendas a Iemanjá. Para a Federação Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Fenatrab), o Candomblé abriga milhões de participantes. Estima-se que existam 2 mil terreiros espalhados apenas pela Grande Salvador, o reduto mais forte da religião.
O Candomblé foi formado a partir das crenças de vários povos africanos, ou "nações", vindas principalmente da área cultural conhecida como banto (onde hoje se localizam Angola, Gabão, Congo, Zaire e Moçambique) e da região do golfo da Guiné. Essa diversidade de culturas também influenciou a religião no Brasil: aqui se estabeleceram diversas "nações" de Candomblé, cada qual com pequenas variações. Apenas um especialista consegue distinguir uma da outra pelos nomes dados às suas divindades, pela maneira de tocar os tambores, pelo idioma dos cânticos ou mesmo pelas roupas usadas nas cerimônias.
A nação de Candomblé que mais se disseminou no país, principalmente na Bahia, foi a chamada nação queto, que preserva as tradições da cultura iorubá, ou nagô, povo que originalmente habitava uma região entre a Nigéria e Benin. Quando se fala em Candomblé no Brasil, normalmente se faz referência ao Candomblé queto. Suas tradições, inclusive, foram aos poucos absorvidas por outras nações, criando uma espécie de uniformização ritual.
O Candomblé se baseia na crença em orixás, divindades africanas que fazem a ligação entre o mundo espiritual e o terreno. Olorum, o criador dos orixás, não interfere no funcionamento do mundo. Isso fica a cargo de seus filhos divinizados - Exu, Oxalá e tantos outros. Os orixás têm características muito parecidas com dos humanos. Eles brigam, tramam complôs e tentam roubar o poder um do outro. Alguns se apaixonam, outros são invejosos ou ciumentos. Alguns são casados - é o caso de Xangô, cujas mulheres são Oxum, Obá e Iansã. Outros são parentes, como Nanã, mãe de Omulu, e Iemanjá, considerada por alguns como a mãe de todos os orixás.
Cada orixá tem poder sobre um aspecto da vida. Oxalá, por exemplo, é o criador dos homens. Iemanjá é a deusa dos oceanos e da maternidade. Exu é o deus mensageiro, que faz a ligação entre os homens e os orixás e entre os próprios orixás. Oxóssi é o deus da caça e da fartura. Xangô representa o trovão e, ao mesmo tempo, a justiça. Não existem orixás mais poderosos que outros. "Oxalá, Xangô ou Exu têm a mesma importância porque cuidam de aspectos diferentes da vida", afirma o sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo. "Há uma divisão de trabalho. Para que tudo vá bem, é preciso que eles atuem em pé de igualdade."
É difícil estipular o número de divindades existentes. Na África, eles podiam ser mais de 400. Cada povo tinha seus deuses específicos. Um rio tinha um orixá, uma montanha, outro. Até mesmo uma árvore possuía uma divindade associada. Em alguns casos, o orixá podia ser também um ancestral importante para seu povo. É o caso de Xangô, orixá associado ao trovão e, ao mesmo tempo, um dos primeiros reis da cidade de Oió, que foi por muito tempo um dos centros iorubanos mais importantes.
Orixás brasileiros
No Brasil, a mistura de todas as tradições africanas, com os mais diversos orixás, provocou uma espécie de consolidação do panteão, com um número limitado de deuses, que gira em torno de 20. Entre eles, há um grupo de orixás mais populares, ou seja, que contam com mais seguidores e costumam ser reverenciados com mais freqüência nos terreiros de Candomblé (leia quadro na página 43). "Um orixá não é mais importante que outro em termos de poder, mas ele pode ser mais festejado, ter mais filhos de santo, mais seguidores", diz Reginaldo. "Além disso, nas festas existe uma hierarquia protocolar entre eles."
Nessa hierarquia, há algumas particularidades. Nas festas e em qualquer ritual privado, por exemplo, Exu precisa ser sempre homenageado em primeiro lugar. "Como ele é muito brincalhão e às vezes assusta, faz artes, precisa ser honrado antes para não atrapalhar o culto", diz pai Pércio de Xangô, do centro Ilê Alaketu Axé Airá, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Pai Pércio é um babalorixá, ou pai-de-santo na língua iorubá. Os babalorixás, ou as ialorixás (mães-de-santo), são os sacerdotes do Candomblé e os líderes espirituais de cada terreiro.
Os orixás brasileiros têm outra característica: muitas vezes, são associados a santos, hábito que surgiu em função do sincretismo entre as tradições africanas e a religião católica. Isso ocorreu na época dos escravos, que não podiam cultuar seus orixás sem ser repreendidos pelos senhores do engenho. Ogum tornou-se Santo Antônio; Oxóssi, São Jorge; Iansã, Santa Bárbara e assim por diante. "Os senhores de senzala achavam que os negros estavam adorando os santos, mas os orixás ficavam embaixo da mesa, com os rituais de sacrifício e as oferendas de comida", diz pai Francisco de Oxum, do centro Ilê Axé Iyá Oxum, em São Paulo.
Esse sincretismo acabou por influenciar o Candomblé e, indiretamente, o Catolicismo. "Os católicos baianos que se vestem de branco nas sextas-feiras em homenagem ao Senhor do Bonfim estão seguindo uma regra do Candomblé, em que a cor branca é característica de Oxalá, identificado como o Senhor do Bonfim", afirma Ordep Serra, da Universidade Federal da Bahia.
Outro traço marcante do Candomblé é a relação entre o orixá e seu seguidor. Cada pessoa tem o que se chama de "um orixá na cabeça". Ou seja, cada um é governado por um deus. São os orixás que escolhem seus filhos, poucos dias após o nascimento da criança. Por isso, todos precisam fazer oferendas em homenagem ao seu "santo", abster-se de comer alguns alimentos proibidos e respeitar o dia sagrado dele. Cada filho-de-santo também tem características semelhantes ao seu orixá. Os filhos de Oxalá, por exemplo, costumam ser tolerantes. Os filhos de Ogum, deus da metalurgia, são ambiciosos. As filhas de Obá são ciumentas e as de Oxum, amorosas.
Para descobrir o orixá de cada um, é preciso recorrer aos búzios, um ritual de adivinhação de importância fundamental para o Candomblé. Na África, os búzios eram jogados pelos babalaôs, sacerdotes ligados ao dom da adivinhação. No Brasil, a tarefa foi absorvida pelo pai ou mãe-de-santo. Os búzios concentram alguns pontos fundamentais da religião: por meio deles, o pai-de-santo descobre qual o orixá da pessoa, faz previsões, dá conselhos. No Brasil, o ritual consiste, na maioria dos casos, no lançamento de 16 búzios, cada qual com uma face inteira e a outra cortada. Ao jogar os búzios na peneira, eles caem com uma das duas faces para cima. Cada combinação obtida - num total de 16 - equivale a um odu, ou sinal, que indica ao pai-de-santo uma resposta àquilo que o consulente procura saber.
O contato entre deuses e mortais não acontece só pelo jogo dos búzios, mas também pelo transe e pela possessão de alguns filhos-de-santo durante as festas públicas. As datas das festas são escolhidas pelo próprio terreiro. Em cada uma, um orixá em especial é homenageado. Isso não impede, no entanto, que os demais deuses participem da festa. Como cada filho-de-santo de um terreiro tem o seu próprio orixá, o que ocorre é uma enorme festa comunitária, em que cada divindade toma posse do seu filho e dança no meio do salão, executando seus passos característicos. "Isso não ocorre na África", diz Reginaldo. "Lá, os cultos são feitos em templos especializados para cada orixá."
Festa no terreiro
A festa envolve preparativos por todo o dia. De manhã, Exu - que sempre toma parte nos rituais - e o orixá a ser homenageado recebem sacrifícios. Para cada deus, um animal é sacrificado. Pode ser uma galinha, um bode, um pombo... "Os bichos são oferecidos para que a religião continue viva", diz pai Francisco. "É como as pessoas: sem carne, sem sangue, nós não estaríamos de pé. O sacrifício é uma troca, um elo de ligação." Para pai Pércio, o sangue significa vida. "A gente alimenta o chão, a terra, a pedra, o ferro, com o sangue de animais." O ritual é conduzido pelo axogum, filho-de-santo com essa função específica.
À tarde, os animais são transformados em pratos pela iabassê, cozinheira do terreiro. Partes como fígado, coração, moela e asas, assim como o sangue, são dedicadas aos deuses. O restante é usado em receitas que serão mais tarde saboreadas pelos participantes da festa. Cada orixá tem sua comida típica. Xangô, por exemplo, tem o amalá, um preparado de quiabo em fatias, azeite de dendê e camarões secos. Oxum tem o omolucum, um purê de feijão-fradinho enfeitado com cinco ovos cozidos; Iansã, os bolinhos de acarajé. As semelhanças com a culinária da Bahia não são mera coincidência. "Todos os pratos baianos mais conhecidos, como o caruru, o vatapá e o acarajé, integram o repertório das oferendas alimentares dos terreiros", afirma Ordep Serra. "A culinária baiana é essencialmente negra e essencialmente um legado do Candomblé."
O próximo passo do ritual consiste em celebrar o que é chamado de "padê de Exu", ou seja, o despacho de Exu. Como é ele quem convoca os demais orixás para a festa, é importante homenageá-lo antes que o ritual comece. O padê é celebrado pelas duas filhas-de-santo mais antigas do terreiro, ao som de cânticos na língua iorubá.
A partir daí, a festa se inicia. Para chamar os deuses ao mundo dos mortais, os tambores têm uma importância fundamental no ritual. São tocados por filhos-de-santo específicos, os alabês, e acompanhados de cânticos africanos. Os instrumentos devem ser tratados com extremo cuidado. Periodicamente, recebem oferendas e sacrifícios para se fortalecer. Além disso, não devem deixar o terreiro em que foram iniciados, para não perder sua força.
A dança dos orixás
Cada orixá tem seus próprios cânticos, que são entoados enquanto as filhas de santo fazem uma espécie de dança de roda no barracão, local em que ocorrem as festas públicas. Eles começam invocando Exu, passam a Ogum e Oxóssi, em uma seqüência que varia de terreiro psrs terreiro. Depois da invocação, filhos e filhas, num sobressalto, começam a incorporar seus orixás e retomam a dança. No meio da festa, eles são retirados do barracão e vestidos com trajes com as cores do seu orixá e seus objetos rituais específicos. Os filhos de Oxalá, por exemplo, vêm de branco, com um cetro. Os de Ogum, com detalhes em verde ou azul-escuro e um facão, e as filhas de Oxum, em amarelo ou dourado e com um espelho.
Cada filho-de-santo recebe só o orixá a que está ligado. No entanto, um santo pode ter uma pessoa que esteja apenas assistindo a cerimônia. É o que se chama de "bolar o santo". "Isso indica que ela precisa se iniciar na religião", diz pai Francisco. "Acontece até com estrangeiros; é a semente africana adormecida naquela pessoa." Depois de iniciadas, as festas costumam entrar noite adentro e terminam com um banquete oferecido pelo babalorixá a todos os convidados. No final da celebração, acontece a confraternização entre os participantes. Não há distinção de classes entre o pai-de-santo, seus filhos e os convidados que não são iniciados no Candomblé.
Cada terreiro, independente dos demais, organiza festas e rituais. Nesse encargo fica o babalorixá, pai-de-santo, ou a ialorixá, mãe-de-santo. Além do "sumo sacerdote" do Candomblé, há uma estrutura de cargos e funções necessárias para manter a ordem de um terreiro. "Um centro é como um país", diz pai Geraldo Odé Jinná Furtado, do centro Ilê Odê, em Vargem, interior de São Paulo. "Além do babalorixá, há um conselho religioso e uma hierarquia complexa."
Abaixo do pai-de-santo, está o pai ou a mãe-pequena (baba-quequerê e Iaquequerê), que ajudam na manutenção do terreiro. Há também os filhos-de-santo que não incorporam os deuses. Chamados de ogãs, eles podem ser os responsáveis pelo batuque, pelo sacrifício ou por auxiliar os filhos-de-santo durante o transe. Alguns ogãs também atuam como "padrinhos" do terreiro, resolvendo problemas práticos para mantê-lo funcionando. Entre os membros que "recebem" o santo, também há uma hierarquia. Os noviços são chamados de abiãs. Depois de alguns anos, tornam-se iaôs, que podem ou não incorporar os santos e, finalmente, os ebômis, ou irmãos mais velhos, que já cumpriram todas as obrigações e recebem os orixás nas cerimônias.
Além das festas, pouca coisa é pública no Candomblé. Os processos de iniciação, por exemplo, são mantidos em segredo. Neles, a ligação do filho-de-santo com o mundo espiritual fica cada vez maior. Envolvem sacrifícios, orações e, num estágio mais avançado, o confinamento do noviço, para ele conhecer os mitos, a hierarquia do terreiro e assim reforçar seu envolvimento com a religião.
Em todo o processo, assim como em tudo o que é feito no Candomblé, é necessário o uso de ervas e folhas especiais para cada ocasião. Como dizem os pais-de-santo, sem as folhas nada se faz. Esse contato direto com a natureza é outro ponto fundamental do Candomblé. "Adoramos tudo o que existe: as águas, as pedras, a terra", diz pai Geraldo. "A própria essência do orixá é a natureza." Após os rituais de iniciação, o filho-de-santo passa a ter objetos sagrados, guardados no próprio terreiro, que representam a ligação entre ele e seu orixá.
Os objetos sagrados são o axé. O axé é a força vital, a energia que permeia o Candomblé. Os presentes aos orixás também constituem o axé. As ervas, o sacrifício, os cantos, tudo representa esse poder misterioso. Pode ser uma bênção, um cumprimento. É uma força a ser acumulada, gasta e emprestada. "O axé é tudo o que é sagrado", afirma pai Francisco. "É algo poderoso, que dá a vida, mas que também a tira." Sem axé, não haveria o Candomblé. Como diz o babalorixá, sem axé, não haveria nada.
Exu
Orixá mensageiro, atrevido e inteligente. É também o deus da sexualidade masculina
Obaluaiê
Orixá das pestes. Seu rosto é coberto com palha para esconder marcas no rosto
Iansã
Deus dos raios, das tempestades e da sensualidade. É esposa de Xangô e guerreira
Oxóssi
Orixá da caça e da fauna, representa a fartura de alimentos. Curioso e solitário
Obá
Uma das mulheres de Xangô. Orixá das correntezas dos rios e da vida doméstica
Oxumarê
Orixá do arco-íris, também chamado deus-serpente. Charmoso e imprevisível
Nanã
Deusa que possui o segredo da vida e da morte. Orixá protetora, introspectiva e sábia
Iemanjá
Orixá dos oceanos e da maternidade. É considerada a mãe dos orixás
Oxum
Orixá das águas doces, do ouro, do amor e da fertilidade. Vela pela gravidez
Xangô
Deus do trovão e da justiça, conhecedor dos caminhos do poder. É jovem e sensual
Ogum
Deus do ferro, métodico e obstinado. Representa a guerra e a tecnologia
Oxalá
Também chamado de "o grande orixá", é o criador dos seres humanos
Livros
Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi. Companhia das Letras, 2000.
O Candomblé da Bahia, de Roger Bastide. Companhia das Letras, 2001.
Site
www.fflch,usp.br/sociologia/prandi/
Fonte: revista superinteressante, maio 2003
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Ubuntu
O ubuntu é uma filosofia que sintetiza a ideia do que significa ser humano. Conceito tradicional de toda a África, assenta em uma máxima zulu segundo a qual "um ser humano se faz humano através dos outros seres humanos" — algo muito distinto do individualismo e da lógica cartesiana que dominam o pensamento ocidental, portanto. O "penso, logo existo" de Descartes se transformaria em "pertenço, logo existo" no ubuntu, imediatamente posicionando o indivíduo no contexto da comunidade.
O termo ubuntu possui um sentido muito amplo, mas geralmente aparece nas discussões relativas à sociedade civil. Estando intimamente relacionado à ideia de solidariedade coletiva, o conceito assumiu grande importância durante o processo de construção nacional da África do Sul. Nele se encontra a chave para a compreensão do ideal democrático sul-africano, que sonha com um país completamente integrado do ponto de vista social.
O conceito é também o que une os diversos povos que a constituição da África do Sul reconhece e respeita sem exceção — uma postura incentivada em todos os aspectos da sociedade. A cultura e a história do país são extremamente plurais, e a filosofia do ubuntu traduziria a união dos sul-africanos em torno da ideia de uma nação comum e unificada.
A filosofia do ubuntu expressa ainda a esperança de que os sul-africanos se unam e aceitem uns aos outros, apesar do passado violento. O sucesso da Comissão Verdade e Reconciliação reflete bem essa esperança.
(texto baseado em site sobre cultura africana em ingles - http://www.africaguide.com/culture/index.htm )
O termo ubuntu possui um sentido muito amplo, mas geralmente aparece nas discussões relativas à sociedade civil. Estando intimamente relacionado à ideia de solidariedade coletiva, o conceito assumiu grande importância durante o processo de construção nacional da África do Sul. Nele se encontra a chave para a compreensão do ideal democrático sul-africano, que sonha com um país completamente integrado do ponto de vista social.
O conceito é também o que une os diversos povos que a constituição da África do Sul reconhece e respeita sem exceção — uma postura incentivada em todos os aspectos da sociedade. A cultura e a história do país são extremamente plurais, e a filosofia do ubuntu traduziria a união dos sul-africanos em torno da ideia de uma nação comum e unificada.
A filosofia do ubuntu expressa ainda a esperança de que os sul-africanos se unam e aceitem uns aos outros, apesar do passado violento. O sucesso da Comissão Verdade e Reconciliação reflete bem essa esperança.
(texto baseado em site sobre cultura africana em ingles - http://www.africaguide.com/culture/index.htm )
Trecho de "Terra Sonâmbula", de Mia Couto
Primeiro caderno de Kindzu
O TEMPO EM QUE O MUNDO TINHA A NOSSA IDADE
Quero por os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz.
Sou chamado de Kindzu. E o nome que se dá as palmeiritas mindinhas, essas que se curvam junto às praias. Quem não lhes conhece, arrependidas de terem crescido, saudosas do rente chão? Meu pai me escolheu para esse nome, homenagem a sua única preferência: beber sura, o vinho das palmeiras. Assim era o velho Taímo, solitário pescador. Primeiro, ele ainda esperava que o tempo trabalhasse a bebida, dedicado nos proibidos serviços de fermentar e alambicar Depois, nem isso: simplesmente cortava os rebentos das palmeiras e ficava deitado, boquinhaberto, deixando as gotas pingar na concha dos lábios. Daquele modo, nenhum cipaio lhe apertaria os engasganetes: ele nunca destilava sura. Vida boa, aconselhava ele, é chupar manga sem descascar o fruto.
Nesse entretempo, ele nos chamava para escutarmos seus imprevistos improvisos. As estórias dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo. Nenhuma narração tinha fim, o sono lhe apagava a boca antes do desfecho. Éramos nós que recolhíamos seu corpo dorminhoso. Não lhe deitávamos dentro da casa: ele sempre recusara cama feita. Seu conceito era que a morte nos apanha deitados sobre a moleza de uma esteira. Leito dele era o puro chão, lugar onde a chuva também gosta de deitar. Nós simplesmente lhe encostávamos na parede da casa. Ali ficava até de manhã. Lhe encontrávamos coberto de formigas. Parece que os insectos gostavam do suor docicado do velho Taímo. Ele nem sentia o corrupio do formigueiro em sua pele.
— Chiças: transpiro mais que palmeira!
Proferia tontices enquanto ia acordando. Nos lhe sacudíamos os infatigáveis bichos. Taímo nos sacudia a nós, incomodado por lhe dedicarmos cuidados.
Meu pai sofria de sonhos, saia pela noite de olhos transabertos. Como dormia fora, nem dávamos conta. Minha mãe, manhã seguinte, é que nos convocava:
— Venham: papa teve um sonho!
E nos juntávamos, todos completos, para escutar as verdades que lhe tinham sido reveladas. Taímo recebia noticia do futuro por via dos antepassados. Dizia tantas previsões que nem havia tempo de provar nenhuma. Eu me perguntava sobre a verdade daquelas visões do velho, estorinhador como ele era.
— Nem duvidem, avisava mama, suspeitando-nos.
E assim seguia nossa criancice, tempos afora. Nesses anos ainda tudo tinha sentido: a razão deste mundo estava num outro mundo inexplicável. Os mais velhos faziam a ponte entre esses dois mundos. Recordo meu pai nos chamar um dia. Parecia mais uma dessas reuniões em que ele lembrava as cores e os tamanhos de seus sonhos. Mas não. Dessa vez, o velho se gravatara, fato e sapato com sola. A sua voz não variava em delírios. Anunciava um facto: a Independência do país. Nessa altura, nós nem sabíamos o verdadeiro significado daquele anúncio. Mas havia na voz do velho uma emoção tão funda, parecia estar ali a consumação de todos seus sonhos. Chamou minha mãe e, tocando sua barriga redonda como lua cheia, disse:
— Esta criança há de ser chamada de Vinticinco de Junho.
Vinticinco de Junho era nome demasiado. Afinal, o menino ficou sendo só Junho. Ou de maneira mais mindinha: Junhito. Minha mãe não mais teve filhos. Junhito foi o último habitante daquele ventre.
O tempo passeava com mansas lentidões quando chegou a guerra. Meu pai dizia que era confusão vinda de fora, trazida por aqueles que tinham perdido seus privilégios. No princípio, só escutávamos as vagas novidades, acontecidas no longe. Depois, os tiroteios foram chegando mais perto e o sangue foi enchendo nossos medos. A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.
O TEMPO EM QUE O MUNDO TINHA A NOSSA IDADE
Quero por os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz.
Sou chamado de Kindzu. E o nome que se dá as palmeiritas mindinhas, essas que se curvam junto às praias. Quem não lhes conhece, arrependidas de terem crescido, saudosas do rente chão? Meu pai me escolheu para esse nome, homenagem a sua única preferência: beber sura, o vinho das palmeiras. Assim era o velho Taímo, solitário pescador. Primeiro, ele ainda esperava que o tempo trabalhasse a bebida, dedicado nos proibidos serviços de fermentar e alambicar Depois, nem isso: simplesmente cortava os rebentos das palmeiras e ficava deitado, boquinhaberto, deixando as gotas pingar na concha dos lábios. Daquele modo, nenhum cipaio lhe apertaria os engasganetes: ele nunca destilava sura. Vida boa, aconselhava ele, é chupar manga sem descascar o fruto.
Nesse entretempo, ele nos chamava para escutarmos seus imprevistos improvisos. As estórias dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo. Nenhuma narração tinha fim, o sono lhe apagava a boca antes do desfecho. Éramos nós que recolhíamos seu corpo dorminhoso. Não lhe deitávamos dentro da casa: ele sempre recusara cama feita. Seu conceito era que a morte nos apanha deitados sobre a moleza de uma esteira. Leito dele era o puro chão, lugar onde a chuva também gosta de deitar. Nós simplesmente lhe encostávamos na parede da casa. Ali ficava até de manhã. Lhe encontrávamos coberto de formigas. Parece que os insectos gostavam do suor docicado do velho Taímo. Ele nem sentia o corrupio do formigueiro em sua pele.
— Chiças: transpiro mais que palmeira!
Proferia tontices enquanto ia acordando. Nos lhe sacudíamos os infatigáveis bichos. Taímo nos sacudia a nós, incomodado por lhe dedicarmos cuidados.
Meu pai sofria de sonhos, saia pela noite de olhos transabertos. Como dormia fora, nem dávamos conta. Minha mãe, manhã seguinte, é que nos convocava:
— Venham: papa teve um sonho!
E nos juntávamos, todos completos, para escutar as verdades que lhe tinham sido reveladas. Taímo recebia noticia do futuro por via dos antepassados. Dizia tantas previsões que nem havia tempo de provar nenhuma. Eu me perguntava sobre a verdade daquelas visões do velho, estorinhador como ele era.
— Nem duvidem, avisava mama, suspeitando-nos.
E assim seguia nossa criancice, tempos afora. Nesses anos ainda tudo tinha sentido: a razão deste mundo estava num outro mundo inexplicável. Os mais velhos faziam a ponte entre esses dois mundos. Recordo meu pai nos chamar um dia. Parecia mais uma dessas reuniões em que ele lembrava as cores e os tamanhos de seus sonhos. Mas não. Dessa vez, o velho se gravatara, fato e sapato com sola. A sua voz não variava em delírios. Anunciava um facto: a Independência do país. Nessa altura, nós nem sabíamos o verdadeiro significado daquele anúncio. Mas havia na voz do velho uma emoção tão funda, parecia estar ali a consumação de todos seus sonhos. Chamou minha mãe e, tocando sua barriga redonda como lua cheia, disse:
— Esta criança há de ser chamada de Vinticinco de Junho.
Vinticinco de Junho era nome demasiado. Afinal, o menino ficou sendo só Junho. Ou de maneira mais mindinha: Junhito. Minha mãe não mais teve filhos. Junhito foi o último habitante daquele ventre.
O tempo passeava com mansas lentidões quando chegou a guerra. Meu pai dizia que era confusão vinda de fora, trazida por aqueles que tinham perdido seus privilégios. No princípio, só escutávamos as vagas novidades, acontecidas no longe. Depois, os tiroteios foram chegando mais perto e o sangue foi enchendo nossos medos. A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
A última fronteira da África
O vale do tio Omo ainda é uma regiao governada por rituais e vinganças. Mas as mudanças estão chegando rio acima.
Por Neil Shea
Foto de Randy Olson
No crepúsculo, um anciião da tribo Kara, o corpo enfeitado de minérios esfarelados, espia para além do rio Omo. Seu povo antes ocupava ambas as margens, mas uma tribo inimiga pouco a pouco os desalojou de parte de seu território.
Dunga Nakuwa cobre o rosto com as mãos e lembra-se da voz de sua mãe. Embora ela tenha morrido há quase dois anos, para a tribo de Dunga, os mortos nunca estão muito longe. Há vilarejos em que são enterrados logo debaixo dos barracos dos vivos, separados dos fogões a lenha e das peles de animais que servem de cama por menos de 1 metro de terra ressequida. E eles também continuam presentes no espírito dos vivos. É por isso que Dunga continua a ouvir a mãe dizendo: Você não vai se vingar do assassino de seu irmão?
Quando ainda vivia, ela às vezes lhe fazia a mesma pergunta, trazendo de novo à baila a vendeta sempre que Dunga tentava se esquivar de sua obrigação. Ele tornara-se o filho mais velho depois que o irmão, Kornan, foi morto pelo membro de uma tribo inimiga. Fora uma morte de emboscada, uma execução coreografada.O pai de Dunga também foi morto por um guerreiro da mesma tribo, e o dever da reparação caiu primeiro nas mãos de seu irmão mais velho. Mas, com a morte de Kornan, o duplo encargo agora cabia a Dunga. Os homens de seu povo, os karas, são conhecidos pela pontaria. Eles haviam resistido às invasões de uma tribo maior e bem armada, a Nyangatom. Em ambas as culturas, aquele que mata um inimigo é adornado com cicatrizes especiais, escavadas na carne do ombro ou da barriga. Diante do assassinato de um parente, todos esperam que um homem cobre o devido tributo de sangue.Por isso, na fala da mãe, Dunga ouve ainda outra questão: Quando você vai se tornar adulto?Dunga é baixo e esguio, e não completou 30 anos. Suas mãos são macias, pois passou anos lendo livros, em vez de viver na mata. Estamos sentados no restaurante de um vilarejo a dias de caminhada de sua região natal. Ao saber que também tenho irmãos, ele me pergunta: "E, você, o que teria feito?" No Ocidente, a vingança fica a cargo dos tribunais. Mas, nesse canto remoto da Etiópia, é breve a história das instituições judiciais. Restam as demandas dos mortos.Dunga nasceu em dus, um vilarejo com choças de pau a pique numa ribanceira acima do rio Omo. Desde sua nascente, no planalto central, o largo e profundo rio corre rumo à fronteira sudoeste da Etiópia com o Quênia e ali deságua no lago Turkana. Em seu curso de 800 quilômetros serpenteia através de gargantas de rocha vulcânica e canais em terrenos lamacentos.Perto da divisa com o Quênia, o Omo escava sinuosas curvas fechadas à medida que se aplaina o terreno e faixas de floresta aparecem ao longo de suas margens. Criaturas fluviais, como crocodilos e hipopótamos, tornam-se mais abundantes. A paisagem é cada vez mais povoada por tribos - Kara, Mursi, Hamar, Suri, Nyangatom, Kwegu e Dassanech, entre outras -, uma população em torno de 200 mil pessoas. Pastores conduzem seus animais pela mata e lavradores avançam com suas rústicas canoas. Conforme a estação, as margens do rio ficam douradas com o restolho das colheitas passadas ou recobertas com o verde úmido de novas safras.Dus está a três horas de caminhonete da estrada mais próxima, e na estação úmida fica isolada em um mar de lama. Como muitos povoados ao longo do Omo, é um agrupamento de choças com cercados de cabras e depósitos de cereais.Os rebanhos de bois e cabras são a riqueza mais significativa de uma família, mas é a lavoura, irrigada com a água do Omo, que alimenta a população. Assim que as cheias sazonais encharcam e fertilizam as várzeas, os lavradores karas perfuram a lama escura com varetas e ali depositam sementes de sorgo ou milho. Se as cheias são insuficientes, as safras se reduzem.A previsibilidade do rio possibilita aos 2 mil karas uma existência mais sedentária que tribos vizinhas, obrigadas a uma busca constante de novas pastagens para os rebanhos. O próprio nome do vilarejo, Dus, significa algo como "já vi outros lugares, mas fico por aqui, onde a vida é boa".
Por muitas gerações, as tribos do rio Omo foram protegidas do mundo externo por montanhas, pela savana e pela singular condição da Etiópia como o único país africano jamais colonizado pelos europeus. No fim da década de 1960 e na de 70, os antropólogos começaram a dar conta do significado disso - os moradores próximos ao rio haviam escapado à influência prejudicial da colonização e aos conflitos que dilaceraram outras sociedades. Ali as tribos permaneceram intactas, migrando, guerreando e convivendo em paz de acordo com costumes já extintos em quase todas as outras regiões.Indícios dessa África ancestral ainda se notam nos discos labiais usados como símbolos de beleza pelas mulheres mursis ou nas temporadas de duelos realizados pelos suris, que vestem armaduras de pele de cabra e se enfrentam com bastões compridos. Há também o ritual no qual as mulheres hamars pedem para ser açoitadas até sangrar ou o rito de iniciação no qual os meninos correm por cima do lombo do gado a fim de provar que estão prontos para a vida adulta.Hoje o vale do Omo é um destino de turistas ricos para assistir a esses rituais - caminhonetes repletas de rostos brancos em busca de uma África arraigada na imaginação ocidental, cheia de bichos, rostos pintados e danças exóticas. Todos afirmam que querem conhecer a região antes que se torne igual a outras partes, como se um McDonald’s estivesse prestes a cair do céu.Há um pouco de verdade nisso: a região do Omo, ainda uma das paisagens culturais mais preservadas do continente africano, passa por mudanças. Quase não restam animais de grande porte, abatidos com armas que chegam das guerras nas fronteiras de Sudão ou Somália. Organizações humanitárias distribuem alimentos, constroem escolas e planejam projetos de irrigação, tudo para tornar mais estável a vida, mas que implica inevitáveis mudanças no modo tradicional. O governo etíope, que sempre ignorou a região, agora se empenha em modernizar as tribos, e funcionários falam como se houvesse cronograma que detalhasse quando e como os costumes serão substituídos.A ideia é de que as vendetas, como a que dilacera Dunga Nakuwa, sejam relegadas ao passado.Foi o gado que delatou o segredo de Dunga. Quando o jovem nativo sumiu, abandonando no mato o rebanho da família, os animais tomaram o caminho de casa. No vilarejo, o irmão de Dunga, Kornan, ficou surpreso ao ver os animais de volta tão cedo - e sem Dunga.Isso aconteceu no fim da década de 1980. Leões, leopardos e hienas rondavam pela savana. Elefantes e búfalos deixavam um rastro de destruição. A região também era patrulhada pelas tribos inimigas: armados de fuzis, os nyangatons, responsáveis pela morte do pai de Dunga (e, mais tarde, de seu irmão), vinham estendendo o território sob seu controle. Desde o assassinato do pai, Kornan tornara-se o arrimo da família, mas mesmo assim não se preocupou com a segurança do irmão. Tinha uma ideia do destino tomado por Dunga, e estava furioso.Os irmãos haviam sido criados à maneira de todos os karas - caçando animais com arco e flecha. Eles vigiavam os campos de sorgo, e afastavam as aves aproveitadoras com pelotas arremessadas com estilingue. Aprenderam a evitar os crocodilos durante a estação das chuvas, quando as águas do Omo sobem. E sabiam qual era a base da responsabilidade masculina: o cuidado com os rebanhos.Às margens do Omo, o gado e as cabras representam riqueza e prestígio. Sem eles, um indivíduo é considerado pobre e, na maioria das tribos, não pode se casar, pois nada de valor tem a oferecer como dote para a família da noiva.Em épocas de fome, os animais podem ser vendidos para ser consumidos ou fornecer leite. Abandonar o rebanho à própria sorte é o mesmo que jogar no rio toda a poupança da família.Kornan então pegou uma vara flexível, foi ao local onde funciona a escola primária e ali encontrou Dunga. Os irmãos davam-se bem, mas como fora capaz de fazer aquilo? Abandonar o rebanho para ir à escola? Kornan bateu em Dunga com a vara até o outro chorar. No dia seguinte, Dunga conduziu o gado até o rio. No entanto, poucos dias depois, fugiu de novo para a escola. E voltou a ser castigado por Kornan.
"Eu adorava Kornan", conta Dunga. "Era como um pai. Mas eu estava decidido a estudar." Kornan acabou percebendo que as punições não mudariam a opinião do irmão. Então fizeram um trato. O menino poderia ir à escola, mas só enquanto recebesse boas notas. Caso seu desempenho piorasse, voltaria ao rebanho. E Dunga foi tão bem nos estudos que mudou para um internato em que cada ano nos bancos escolares o levava mais longe a um novo mundo. Ele passou a retornar para casa cada vez menos.Enquanto isso, Kornan tornava-se líder. Ele tinha esposa, vários filhos e a reputação de ser um caçador sem igual. Mulheres de outros homens da tribo o presenteavam com munição e pediam: Traga algo para mim. Mas continuava pendente a tarefa de vingar a morte de seu pai. Os parentes, os amigos e os mais velhos insistiam para que resolvesse logo a questão.Em uma região desabitada a 515 quilômetros de onde vivem os karas, está sendo construída uma barragem. Chamada Gilgel Gibe III, será uma das maiores do mundo, e dará origem a uma represa imensa, cuja água será usada para gerar até 1 870 megawatts de eletricidade. A conclusão está prevista para 2013.A usina hidrelétrica Gibe III irá proporcionar recursos financeiros para a Etiópia e gerar grande parte da eletricidade em um país em que apenas um terço da população tem acesso à rede elétrica. Mas também reduzirá o fluxo do rio Omo e restringirá o regime de cheias e vazantes que, rio abaixo, é essencial às lavouras de tribos. Os nativos pouco podem contra um projeto que conta com o beneplácito oficial e está em pleno andamento. Muitos não deram conta de quanto sua vida pode ser transformada pela barragem; e muitos deles apoiam o governo, mesmo sem entender as consequências.No vilarejo de Dunga, na época da lua nova, perto de onde o rio Omo deságua no lago Turkana, o homem que conversa com crocodilos caminha na escuridão para realizar uma cerimônia para proteger seu povo. Ele carrega um feixe de galhos com folhas e o mergulha na água, depois sacode os galhos em direção da nascente e para a foz do rio enquanto pronuncia palavras com uma autoridade que não lhe foi conferida pelos homens. "Crocodilos! Prestem atenção! Este lugar é meu, do meu pai e do pai do meu pai. Fiquem longe. Deixem que meu povo e seus rebanhos desçam aqui para beber, e deixem as crianças nadar neste trecho. Se vocês se aproximarem, não vão escapar das minhas balas!" Em seguida, deposita os galhos no lodo, entra na água escura e banha o corpo.Esse homem mantém um relacionamento especial com os antigos répteis, tal como no passado seu próprio pai. Em seus sonhos, os crocodilos dirigem-se a ele. "E o que dizem?", pergunto. "Não é da sua conta", responde. Os crocodilos sabem ouvir, pois, até onde vai a memória coletiva, nenhum atacou um ser humano perto do vilarejo. Os velhos balançam a cabeça, atestando que é verdade. "E quanto àquela mulher grávida que foi morta no ano passado?""Bem, ela não me ouviu." O homem faz um gesto na direção de um trecho mais abaixo no rio. "Ela foi morta ali. Aquele lugar não está sob a minha proteção." Os velhos assentem com a cabeça: a advertência é clara. A mulher havia entrado em território alheio.Pergunto sobre Gibe III. De repente muda a atmosfera, como sempre ocorre quando menciono a barragem. Um grupo aproxima-se. Alguns haviam ouvido falar daquilo. O homem pergunta: "E o que é, exatamente, uma barragem?"Os karas já chegaram a controlar as terras em ambas as margens do Omo, mas pouco a pouco os nyangatons foram avançando e empurrando os karas, que hoje se limitam a ocupar a margem leste. Uma tribo seminômade, os nyangatons foram um dos primeiros grupos a ter acesso a fuzis automáticos, trazidos do Sudão. Nas décadas de 1980 e 90, eles ampliaram seu território, ameaçando os vizinhos que ainda usavam lanças. A população nyangatom cresceu.
Mas os karas não cederam suas terras facilmente. Na época em que Dunga terminava a escola secundária, a maioria das tribos já contava com armas, exacerbando a tensão. Os karas ocultavam-se nas árvores às margens, alvejando os nyangatons que se aproximavam da água.Já os nyangatons cruzavam o rio em grupos que disparavam rajadas de balas. Foi a essa altura que Kornan, com o primo, saiu para caçar no mato. Os animais de grande porte haviam sido dizimados, mas em alguns locais ainda se encontravam gazelas, antílopes e até elefantes. Era questão de ficar de tocaia e ver o que aparecia.Os dois caçadores, porém, toparam com um grupo de nyangatons, e houve tiroteio. Kornan atingiu um deles no estômago antes de recuar, e o homem não sobreviveu. Como não havia atirado para matar, não servia para compensar a morte de seu pai. Ao mesmo tempo Kornan tinha plena consciência do que havia iniciado. Agora também ele passaria a ser caçado.A despeito dessas escaramuças, os karas costumavam comprar munição dos nyangatons.E Kornan havia dado dinheiro a um homem kwegu, de uma pequena tribo, para que comprasse balas. O kwegu nunca entregou a munição, e Kornan ficou furioso. Tempos depois, um intermediário convidou Kornan para tomar um café em sua choça, na margem nyangatom do rio, a fim de resolver a questão. Kornan não hesitou: pegou sua AK-47 e atravessou as águas.Kornan não imaginava que o encontro fora arranjado pelo irmão mais novo do guerreiro que ele havia matado. Quando se encontrou com o kwegu sob uma cobertura de galhos, o café fervilhava em uma vasilha de barro. Então um grupo de nyangatons se aproximou. Kornan ficou desconfiado, mas nada aconteceu. Ele acabou se descontraindo e deixou de lado o fuzil.A conversa era cheia de rodeios. O kwegu dizia que pretendia fazer uma vasilha de uma grande cabaça. Depois disse que precisava se aliviar e se afastou. Esse era um sinal. Kornan, porém, estava concentrado na cabaça e não percebeu nada. Tampouco viu quando um dos nyangatons se aproximou. Ele disparou pelas costas e correu enquanto Kornan se esvaía em sangue.Não demorou para que corresse a notícia do assassinato. Furiosos, alguns karas atravessaram o rio e atacaram os nyangatons. Os amigos de Kornan carregaram seu corpo à outra margem. E naquela mesma noite saíram em busca de Dunga, que estava no vilarejo de Dimeka. Entre os karas, não é costume transmitir de chofre as más notícias. Apenas na manhã seguinte, eles contaram que Kornan havia sido morto.A partir de então, Dunga tornou-se o responsável por tudo - as terras e os rebanhos da família, o bem-estar de sua mãe e também o da mulher e dos filhos de Kornan. Também se tornou responsável por vingar mais essa morte. E isso tirou-lhe o sono. Sempre que voltava para casa, a vendeta estava a sua espera. Não que fosse difícil matar um nyangatom: afinal, a região é imensa. Bastava ficar de tocaia no rio, e esperar que levassem o gado a beber água. Ou postar-se à noite em numa das trilhas solitárias, e depois abandonar o corpo às hienas. Por que, Deus, coube a mim esse fardo?, remoía Dunga.Pensou em abandonar a escola, mas desistiu. Estava na faculdade e, após anos de estudos em grande parte baseada no pensamento ocidental e influenciada pelo cristianismo, Dunga havia mudado. Estava se familiarizando com as noções ocidentais de lei e de justiça. Embora tivesse sido criado em uma cultura que aceitava o assassinato, agora vivia em um ambiente no qual tais mortes eram imorais. Não pensava em vingança. Dunga sabia que sempre seria um kara, mas não mais se sentia submetido à autoridade da tribo.
O indivíduo a quem chamam de rei está próximo à entrada, no interior de uma imensa choça. Seu cabelo, untado de manteiga e brilhando com minerais esfarelados, é irretocável. "Se tem algum problema com gado, pessoas, terra, eu resolvo", afirma o rei. Seu rosto transparece uma confiança rara e absoluta. "Para tudo em meus domínios", repete, "eu tenho a solução."De sua choça no alto dos montes Buska, Wangala Bankimaro governa os 30 mil membros da tribo Hamar. São pastores que criam rebanhos em uma área a leste do rio Omo. Também cultivam sorgo e milho. Os hamars são vizinhos e aliados dos karas. Em um ambiente hostil, eles conseguiram prosperar e se tornaram uma das tribos mais populosas da região. Por tudo isso, os hamars são gratos às chuvas, que alimentam o gado e as lavouras. E, por trazer a chuva, eles são gratos a Wangala Bankimaro.As mulheres me contam que Wangala é respeitado até pelas autoridades etíopes. Já os homens, com fuzis nos ombros, dizem que as maldições de Wangala são mais temíveis que as balas. Uma bala pode não acertar o alvo, mas uma maldição é morte certa.Quando o visito em seu barraco, Wangala acaba de voltar de uma cerimônia para invocar a chuva. Com braceletes de cobre nos pulsos, ele veste camiseta, calção branco e sandália com sola de pneu velho. Pergunto ao rei por que ele não agiu antes, a fim de evitar a seca. "Eles não se deram ao trabalho de me procurar", diz. "E não fizeram os sacrifícios para trazer a chuva."Pouco a pouco, à medida que o governo etíope amplia sua influência e impõe o código jurídico às tribos, as autoridades federais se empenham em obter o apoio de Wangala. Uma das iniciativas tem como objetivo abolir o que essas autoridades denominam de "práticas tradicionais nocivas". Entre elas estão justo aquelas que mais atraem os olhares dos turistas: o ritual de fustigação das mulheres, as lutas com bastões e a cerimônia de passar sobre o dorso do gado.A relação desses costumes também inclui a circuncisão feminina (que, embora não seja adotada pelos hamars, é comum em toda a Etiópia) e uma prática conhecida como destruição de mingi. Mingi é uma espécie de azar extremo. No sul da Etiópia, muitas tribos acreditam que é mau agouro uma criança nascer deformada, seus dentes superiores eclodirem antes dos inferiores ou nascer fora do casamento. Elas devem ser sacrificadas antes que o mingi se espalhe.Os karas discutem a prática. Wangala, porém, já tomou sua decisão. Pouco tempo antes, ele posicionou-se em favor da abolição. "Agora não vai mais ter nenhuma morte de mingi entre os hamars", conta o rei para mim. "Eu resolvi assim." Ele declara isso sem o menor traço de arrogância. A tradição, a mágica e o medo eliminados de uma penada. "Eu sou a solução."Num fim de tarde em março passado, cerca de 200 nyangatons estão reunidos para celebrar a paz com os karas. A pintura de argila forma listras brancas nos corpos, tornando-os fantasmagóricos e esqueléticos. Nacos de carne assam em espetos. Mais além, os homens empilham seus fuzis em um gesto de boa vontade, e também por um motivo simples. Dada a história, o melhor é deixar as armas fora de alcance.Um velho circula a passos lentos, agitando as mãos e anunciando: "Povo nyangatom! Vocês precisam querer a paz!" Depois ele se volta para o outro lado da multidão. "Vocês, povo kara! Não deixem ninguém destruir a paz!", grita o ancião. "Que seja assim!", entoa a multidão.Logo começaria a dança, e a clareira iria tremer com o ritmo de pés golpeando a terra exaurida. Nessa celebração conheço um jovem chamado Ekal, que pouco antes havia sido eleito chefe dos nyangatons. Ele tem menos de 30 anos e, como Dunga, fizera curso superior. Veste camisa polo larga, calça também larga e boné de beisebol. Enquanto seu povo dança, todos quase nus, Ekal os filma com um telefone celular. Ele diz que os tempos de guerra ficaram para trás e que o governo consolida sua presença na região. Aqueles que se manifestam contra podem ser presos, prossegue Ekal, e conta o caso de um nyangatom que se vangloriou de que iria matar alguns karas. Ekal chamou a polícia, e o fulano acabou na cadeia.Quando volto a ver Dunga, alguns dias após a celebração, ele me diz que suas dúvidas enfim se dissiparam. Não tem o menor interesse em levar adiante a vingança. "Para mim, é como se uma cobra tivesse picado meu irmão. Como se meu pai tivesse sido atropelado por um carro.A vingança não faz parte da minha vida."
Os velhos apoiam sua decisão. Eles sentem os ventos de mudança que sopram na região. Ouvem notícias da barragem que está sendo erguida rio acima e das iniciativas do governo para coibir costumes tradicionais. Eles têm consciência da armadilha que a tradição colocou no caminho de Dunga, a mesma que provocou a morte de Kornan. Os velhos sabem que Dunga era mais que um homem preso em uma vendeta. Fique tranquilo, eles lhe disseram.Esta era a resposta que Dunga sempre havia esperado: o mundo de seu passado reconhecendo a força de seu mundo vindouro. Além de cortejar líderes antigos, como Wangala Bankimaro, o governo criou um programa para promover a lei e a ordem na região nomeando jovens para posições de poder no plano local. Quando se formar, Dunga será o primeiro advogado saído de sua tribo, e deve ser enviado de volta ao vale do Omo como juiz ou procurador público. Ele tem consciência de que é uma espécie de missionário, e irá se empenhar na modernização do povo kara, a fim de prepará-lo para ser parte da nação etíope. "É preciso aceitar a mudança", diz. "A minha vingança vai ser acabar com essas mortes."Meses depois, volto a Dus e constato que a paz continua. A seca castiga a região e, um dia, avisto vários nyangatons cruzando o rio para pedir ajuda aos amigos karas. Sem hesitar, eles fornecem sacas de cereais aos antigos inimigos.Mas nem tudo está perdoado. No vilarejo de Kornan, a jovem viúva, Bacha, ainda não se recompôs. Ela cumpre o luto tradicional: tirou os adornos, deixou o cabelo crescer, vestiu apenas um couro grosseiro. Viveu assim por dois anos, até que os velhos e os amigos a arrastaram para fora de casa. No fim, cortou o cabelo e voltou a usar os braceletes e colares, mas isso não significa que tenha se conformado. Um pretendente foi rejeitado. Ela ainda guarda as coisas de Kornan - as roupas, as contas. E também o AK-47.Um dia, pergunto-lhe sobre o fuzil. O rosto de Bacha é impressionante, sem nenhuma ruga. Um prego de cabeça larga projeta-se através de seu lábio inferior. "Vou guardá-lo para que meus filhos o vejam", diz ela por fim. Bacha não parece impressionada com Dunga. Teoricamente, ele é o chefe da família, mas cabe a ela cuidar das tarefas, o que faz com a ajuda dos dois filhos, ambos com menos de 10 anos. "Meus filhos vão saber que o pai foi morto por um nyangatom", diz.Antes de deixar a Etiópia, falo por telefone com Dunga, que está em Jinka, um vilarejo fronteiriço onde frequentou o internato. Está mostrando a escola ao sobrinho, o filho mais novo de Bacha. A ideia é de que o menino estude. Menciono o comentário de Bacha. "Às vezes, quando falamos, ela diz ‘tudo bem’. Mas sei que não é de coração. Fico com a impressão de que só a vingança vai torná-la feliz", diz. Se não convencer Bacha, ele tentará influenciar os filhos dela.Antes de nos despedirmos, Dunga conta que ficou estabelecido que o filho mais velho de Bacha vai continuar em casa, como o pai, cuidando dos rebanhos e das lavouras. Ele viverá com Bacha e crescerá entre os velhos amigos do pai.E viverá por um tempo à sombra de Kornan. Penso no rosto de Bacha, na imobilidade de seu olhar. Quando o filho crescer o suficiente, ela contará a ele o que aconteceu com o pai. E aí, talvez, também lhe entregará o fuzil de Kornan.
Sangrando de um corte na cabeça, um menino Suri olha bem nos olhos de seu oponente durante uma luta de bastão perto do vilarejo de Tulgit. Chamadas de sagine, as essas batalhas tradicionais geralmente se dão entre homens de vilarejos ou clãs rivais no final da temporada de colheita; podem incluir dúzias de combatentes e enormes plateias.
Para esta mulher suri, que bebe cerveja de mel sobre o tradicional disco no lábio, mesmo um boteco tão precário é novidade. Com a introdução de bebidas alcoólicas baratas e fortes em áreas em que antes eram escassas, o consumo excessivo vem se tornando um problema.
Com o rosto pintado de barro e o pescoço enrolado com contas, mulheres da tribo Nyangatom se preparam para dançar em uma cerimônia ao longo da margem do rio Omo. A cerimônia tinha sido organizada para comemorar um novo tratado de paz entre os Nyangatom, que vivem a oeste do Omo, e os Kara, que vivem na margem oposta. Em uma paisagem de alianças mutantes, em que a ferocidade é valorizada e a maior parte dos homens anda armada com espingardas, as tribos lutam por terras e se envolvem em disputas sangrentas. Depois de vários anos de luta intermitente, os vizinhos finalmente concordaram com um cessar-fogo, com a ajuda de uma ONG e pressão do governo etíope.
Minerais esmigalhados são aplicados sobre o cabelo de uma menina Hamar. Misturando manteiga, pigmentos de mineral vermelho e às vezes incenso, as mulheres Hamar enrolam o cabelo formando mechas que se assemelham a cordas grossas.
Um menino kara observa a multidão em uma festa de casamento, em que convidados de todas as idades desfrutam da cerveja de sorgo oferecida pelas famílias dos noivos. As festas variam conforme a estação e os recursos e podem durar dias.
Conferindo a flexibilidade de seus galhos, um jovem Banna se prepara para açoitar uma moça durante um ritual de iniciação. Ao fundo, um de seus companheiros se prepara para acertar outra mulher. Entre as tribos dos Banna e dos Hamar, é costume as mulheres serem açoitadas durante a cerimônia que inicia os garotos na vida adulta. Parentas do iniciado têm papel de apoio fundamental: elas cantam, dançam e preparam a comida. As cicatrizes resultantes do açoite são marca de orgulho para as mulheres, demonstrações de solidariedade ao garoto que passa por suas próprias provações para se tornar homem. As mulheres às vezes cantam para atiçar o açoitador e fazer com que bata mais forte.
(Retirado do site da National Geographic Brasil)
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